Bola na arquibancada

Ao cancelar minha assinatura do Globo, a moça perguntou se estava saindo devido a alguma editoria específica. “Esporte”, respondi. Houve quem me criticasse afirmando que “enfraqueci” a minha atitude, provavelmente por achar, o meu crítico, que o esporte é algo menor. Não é. Na minha visão, o esporte, e tudo o que o cerca, é uma atividade que revela o que somos, como seres humanos e como sociedade. É, grosseiramente comparando, o que o chiste é para a psicanálise freudiana – um momento em que o inconsciente aflora, aproveitando um relaxamento do superego.

Esta reflexão veio a respeito do imbróglio, ainda não terminado, envolvendo o meu Fluminense, a Portuguesa de Desportos e o Flamengo. Como você deve saber, os dois últimos perderam pontos conquistados na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013 – e mais três como punição – por terem escalado jogadores que haviam sido suspensos pela Justiça Desportiva. A perda de pontos por parte do time paulista salvou, pelo menos por enquanto, os dois cariocas do rebaixamento.

O regulamento da competição era claro e jamais houve dúvida séria de que Flamengo e Portuguesa seriam punidos. No entanto, desde o início, jornalistas, especialmente os ligados ao clube rubro-negro, passaram a acusar o Fluminense de tentar “virar a mesa”, muitos de maneira agressiva (exemplo aqui). Esse tipo de atuação acabou por levar a situações de violência como esta. Houve, claro, jornalistas responsáveis que mantiveram o equilíbrio e contaram a história de maneira correta (aqui). No entanto, foram flagrante minoria e não conseguiram impedir a onda de violência física e moral contra os tricolores e suas famílias que seus colegas deflagraram e que não deve parar tão cedo.

Bem, como este é um blog que fala de jornalismo e mídia em geral, vou me deter nos motivos pelos quais, segundo minha visão, os jornalistas agem de maneira tão leviana não só nesse caso e não apenas nas editorias de esporte, mas em geral. Basicamente, são três:

1. Feicebuqização da pauta;
2. Relaxamento de filtros dentro das redações;
3. Política de bônus das empresas.

O primeiro ponto é uma espécie de rendição dos veículos – impressos, especialmente, mas também rádio e TV – às redes sociais. Há quase duas décadas, os veículos de comunicação vêm reduzindo as equipes nos diversos setores das redações. Essa redução, obviamente, diminuiu a capacidade desses veículos de cobrir os fatos. Isso não foi um problema até uns cinco anos atrás – o que era notícia era o que os jornalistas decidiam que era notícia e ponto final. Não havia quem dissesse o contrário – melhor, havia, mas ninguém lia ou escutava.

Com o surgimento da internet, isso foi mudando aos poucos e, desde o surgimento das redes sociais, uma aceleração imensa ocorreu, a ponto de inverter os termos da equação – quem decide o que é notícia é a rede social. Há espaço aqui e ali para matérias fora dessa pauta, em geral especiais de fim de semana, mas, no geral, elas se perdem no turbilhão das notícias geradas pelos feicebuques da vida. O próprio caso do linchamento do Fluminense e de seus torcedores seguiu esse roteiro – os ataques dos linchadores e as defesas dos tricolores desenvolveram-se basicamente na rede, com os veículos intervindo, por meio de sites e blogs, no máximo, em pé de igualdade com o FB e os blogs em geral.

Os cortes da redação citados acima incidiram (e ainda incidem) sobre aqueles que são mais velhos e experientes. Essa também é uma política antiga. Em 1995, na aula inaugural do chamado Projeto Calandra – uma associação do Globo com a PUC visando preparar jornalistas para a mudança midiática que já se anunciava -, o coordenador do lado da empresa (que fora meu chefe no Globo, do qual hoje é acerbo crítico e me honra com a eventual leitura deste desvalioso blog) disse que “para as Organizações Globo, o jornalismo é uma profissão de jovens”. A lógica era correta – jovens aprendem rápido, obedecem mais facilmente e têm preparo físico para encarar puxadas jornadas de trabalho por muito mais tempo.

O outro lado dessa lógica, porém, é que jovens não têm memória do que ocorreu pelo simples fato de não terem vivido os fatos e isso, somada a uma obediência que embota a capacidade de reflexão, fez com que a qualidade do corpo redacional caísse rápida e profundamente, levando ao relaxamento dos filtros internos da redação. Esse processo permitiu que não só o número de bobagens diárias aumentasse grandemente (é só pegar uma edição de qualquer jornal e ver), como também as decisões editoriais se tornassem mais permeáveis a pressões de todo o tipo.

Um dos tipos de pressão se institucionalizou. Há alguns anos, os editores passaram a ser avaliados conforme as regras do mercado geral e não pelas jornalísticas. Assim, passou a contar se ele/ela cumpre o (e, se possível, economiza no) orçamento e o índice de venda e leitura do jornal em geral e de sua editoria. Dependendo dos resultados, ele recebe um bônus no salário. Ora, se a torcidas rivais querem linchar o Fluminense e seus torcedores não é um editor jovem – de idade e/ou de cargo –, e que depende de um índice de resposta maior para ganhar uma boa grana, que vai colocar obstáculos baseados na importância do jornalismo como espaço de conflito e busca da verdade, certo? Até por que, olhando para o lado, nas editorias de política, economia , cidades e no “aquário”, ele vê que ninguém está lá muito ligando para isso também.

Enfim, esse imbróglio permite um bom estudo de caso sobre o papel dos veículos de comunicação e de seus profissionais na lenta, mas sempre  crescente, fascistização da sociedade brasileira, no mais das vezes com teses e falas em favor da moralidade e de combate à corrupção. Teses e falas essas que, há 50 anos, deram no que deram.

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2 comentários sobre “Bola na arquibancada

  1. Ivson,
    concordando com tua análise quase ipsis literis, observo, no entanto, que duas áreas editoriais, a esportiva e a policial, geralmente são exercidas com descaso pela ética. Se nas outras a norma é aparentar isenção, nestas toma-se partido sem vergonha ou culpa, idolatrando-se comentaristas, narradores e repórteres que exaltam ou tomam partido nas lutas internas pelo poder em seus clubes. O que está acontecendo não é fato novo, apenas ganhou em intensidade. Digo isto com todo o respeito pelos coleguinhas que se respeitam e respeitam o leitor remeando contra a maré da tradição.
    Saudações ácratas!

    • Verdade, Sanz. Mas antes, no caso do Esporte, havia respeito pela instituição clube. Não se falava do Fluminense, mas de uma determinada diretoria do Fluminense. Houve uma mudança de patamar. Quanto às lutas políticas internas dos clubes, isso também havia, mas de maneira mais discreta, com mais respeito pessoal. Falta muito isso – respeito, puro e simples respeito.

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