Deu pra ti, O Globo. Tchau.

Comunico a quem interessar possa que sou agora um feliz ex-assinante do Globo.

Confesso que não foi uma decisão fácil. Foi tomada aos poucos, ao longo dos últimos anos. Afinal, sou assinante de jornais desde que entrei na vida adulta, até porque sempre achei que, como jornalista, precisava lê-los (muitas vezes por trabalhar neles). Em outras épocas, tinha assinatura do JB, que foi abandonada quando perdi uma reunião de trabalho devido ao engarrafamento por  o jornal não ter noticiado uma obra na Linha Vermelha.

Ou seja, nunca fui um fã de coração do Globo. Assinava-o por necessidade e pela convicção de que falei acima. Esta foi sendo abalada, pouco a pouco, ao longo dos anos, pela crescente atividade manipuladora do jornal da Irineu Marinho. Não que ela não existisse antes – desde sempre, O Globo é assim (inclusive, como repórter e redator de lá, durante um ou dois anos, lá nos anos 80, dei minha cota para que assim fosse), mas sempre foi algo que dava para contornar. Era só ler nas entrelinhas, um treinamento pelo qual passou, durante a ditadura, todo brasileiro interessado no que ia pelo país, e cavar, nas matérias, as informações fundamentais, que se encontravam, jogadas displicentemente, lá pelo quinto ou sexto parágrafo, em vez de constarem do lide.

Nos últimos tempos, porém, um pouco pelo cansaço natural da idade, muito pela emergência da internet, passei a ter menos tolerância com O Globo. Ainda assim, o hábito é poderoso e fui ficando com a assinatura. Na semana passada, porém, o quadro alterou-se. A cobertura tendenciosa, manipuladora ao nível do desrespeito, do chamado Caso Héverton – o qual, se você estava no Brasil nos últimos dias, sabe qual é – fez com que minha paciência se esgotasse. Ainda assim, até hoje de manhã, tinha dúvidas se iria mesmo fazer o que me propus no fim de semana: cancelar a assinatura.

Aí veio a manchete da edição de hoje: “Lei de Acesso teve só um recurso atendido”.

Na chamada, dizia-se que dos 267 recursos interpostos contra decisões de órgãos federais que não concederam informações segundo a Lei de Acesso à Informação, apenas um fora atendido. Logo adiante, o texto informa, porém, que foram 139 mil os pedidos registrados – ou seja, apenas em 0,2% houve recursos. Mais: nada menos do que 102 mil (73,3%) foram atendidos sem problemas.

Como diz Chico Buarque, foi a gota d’água.

O diálogo com a moça que me atendeu gentilmente na Central do Assinante me confirmou que não só estava certo em minha decisão, como – agora citando Francis Hime, – já estava indo tarde. Diante de minha hesitação em dizer qual fora o motivo do cancelamento, completou por mim: “Foi a linha editorial?” Confirmei. “Alguma editoria específica?”. Esporte, respondi. “Ah, sim…”, disse ela, que, pelo tom de voz, mostrou-me que não era o primeiro a dar essa resposta (algo corroborado minutos depois por um colega de trabalho, também tricolor, com quem comentei o cancelamento: “Fiz isso semana passada”, disse).

Por pagar em débito automático no cartão, até o dia 8 ainda continuarei a aturar O Globo, mas, desde já, me sinto mais feliz por estar próximo a me livrar de um jornal que, ao que parece, dedica-se com todo o afinco a passar para trás os seus leitores.

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3 comentários sobre “Deu pra ti, O Globo. Tchau.

  1. Ivson, então passa a assinar o Dia, do qual você fala pouco ou quase nada aqui neste espaço, e que desde hoje voltou ao formato standard. Um abração.

    • Alex, não sei se tenho o perfil do leitor de O Dia. Dou muito valor ao noticiário político nacional, ao econômico e ao de ciências (do qual vou sentir muita falta no Globo). O Dia, pelo que sei, não é forte nessas áreas.
      Aliás, pq não se retoma aquela ideia do Ary Carvalho de criar um semanário? Creio que tem um espaço bom, pelo menos aqui no Rio.

  2. Caríssimo, fi-lo (como diria o Presidente Quadros) há já muitos anos, quando nem uma só razão tinha para lê-lo, não mais militando na imprensa ou na docência. Sendo tricolor e coleguinha solidarizo-me contigo e com a vozinha que soprou: “foi tarde”.

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