A paralisia do Aécio

Pouco antes de sair de férias, li a seguinte frase do Aécio Neves, escolhida como uma das melhores da semana pelo Globo (ó surpresa!):

“As políticas sociais já não terão mais o peso que tiveram em eleições passadas. Elas já foram precificadas pelos eleitores” .

Essas palavras mostram claramente o motivo pelo qual a cada pesquisa Dilmão amplia sua vantagem sobre os candidatos da oposição: esta não tem a menor ideia do que acontece no país. Sem ter noção do que vai pelas ruas, como é que se pode montar uma plataforma que embase uma candidatura minimamente competitiva?

O dilema básico de Aécio, expresso pela frase, é que ele não pode admitir que os brasileiros deram uma salto em seu padrão de vida nos últimos 10 anos que não encontra paralelo nos 50 anos anteriores. Por mais óbvio que isso seja, admiti-lo claramente levaria a perguntas incômodas como:

1. Então por que vocês não tomaram essas medidas quando estiveram no poder? Não foi por falta de tempo.

2. Por que lutaram contra a implementação dessas medidas quando elas foram propostas?

3. O que farão para aprofundá-las?

Haveria outras perguntas chatas como essas, mas a número 3 é a demolidora. Por que o que se viu nas manifestações de junho não foi um protesto contra o realizado nos últimos 10 anos, mas o que deixou de ser feito – ações pela melhoria da saúde, da mobilidade urbana, da educação. Os protestos exigiam mais pressa, maior velocidade no caminhar e não mudança da estrada que vem sendo seguida.

E o que os tucanos têm a oferecer nesse campo? A resposta é nada. Na verdade, têm a propor exatamente o contrário – uma mudança na rota, um cavalo-de-pau na agenda social, que, muito provavelmente, jogaria os brasileiros de volta aos anos 90.

E não há como Aécio propor algo diferente, pois é o que ele e sua base de poder – especialmente os grandes empresários e a parte da classe média mais reacionária – acreditam. Se disser que vai manter o que está aí, desagrada a maioria quem quer mais; se disser que vai botar o pé no acelerador, essa maioria, muito provavelmente, não vai acreditar nele (devido às perguntas 1 e 2) e ainda vai desagradar ao seu pessoal.

Sair desse impasse paralisante – e rápido – é o desafio dos tucanos. Francamente, dado o passado de todos e às suas companhias de viagem, acho bem difícil.

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