A “Estrela da Morte” bambeia

Alto Conselheiro que acompanha o tema envia uma colaboração que não é sobre jornalismo, mas, como você pode ler no subtítulo, a Coleguinhas também é sobre mídia em geral, e o caso afeta um dos pilares da mais poderosa empresa de comunicação do país. Com a palavra (ou o teclado), o Alto Conselheiro:

Um grupo de atores, liderados pelo Antônio Fagundes, está negociando com a TV Globo o reajuste dos valores pagos a título de direito de imagem de reprises no Canal Viva e na Globo Internacional. A informação, meio que despercebida, foi dada pelo site do jornalista Daniel Castro (Notícias da TV) e pelo colunista da Veja Lauro Jardim e pode sinalizar algo que pouca gente parece estar enxergando: o poder de fogo da emissora não é mais o mesmo quando se trata de remuneração de artistas.

Pelas informações, Fagundes foi escolhido pela liderança que exerce sobre os demais atores e por ser conhecido como um hábil negociador. A pauta traz ainda o pagamento de cachê a artistas que participem dos programas da casa, como “Mais Você”, “Encontro com Fátima Bernardes” e “Video Show”. O grupo entende que os artistas têm sido demandado várias vezes e com isso ocupando uma agenda já não tão cheia com compromissos (ainda que da casa) sem receber por isso.

O primeiro pedido é mais fácil de entender. Quem é ator de TV, além de salários (ou cachê, quando o contrato é por obra), tem direito a receber um valor chamado direito de imagem, que remunera as pessoas que permitem o uso delas na TV. Isso porque a novela, por exemplo, será divulgada na emissora, seja em programas, seja nos comerciais.

Quando o programa é reprisado – para ficar com uma obra que o próprio Fagundes trabalhou, “Carga Pesada”, por exemplo – o que se paga é apenas o direito de imagem – que, creio eu, sejam ligados aos direitos conexos – valor pago pela participação de terceiros numa criação. Esses atores querem aumento do direito de imagem pagos pelo canal Viva, que é notoriamente o mais bem sucedido entre os canais Globosat e que tem como base as reprises de programas da emissora-mãe. Nessa conta entra ainda a Globo Internacional, que também apresenta um número relevante de reprises.

O segundo pedido é mais significativo. Na prática, eles querem receber por usar a imagem deles em outros programas da emissora. A meu ver, eles entendem que mesmo sendo contratados, estão fazendo “hora extra” ao participar de programas, ainda que a título de divulgação. Essa prática é comum em lançamento ou encerramento de novelas e séries ou em debates de temas que a obra trata. Por um lado é bom, pois ajuda na publicidade dos programas da casa, mas por outro, ajuda a levantar a audiência desses programas. Basta ver que “Mais Você” e Encontro com Fátima Bernardes” são programas com dificuldades de audiência e que frequentemente recorre ao cast da Globo.

Isso acontece quando a emissora líder de audiência já vem verificando queda em sua média geral há anos, ao mesmo tempo que cinema e TV paga ganham espaço e a internet tem permitido novas formas de criação – e formação de audiência. Basta ver o onipresente Porta dos Fundos. A Globo já não gasta o que costumava: cada vez mais, atores novos têm fechado contratos por obra.

Qual será o desfecho disso?”

Os pontos levantados pelo AC são interessantíssimos, mas, além da internet, quero crer que há um outro fator que está impulsionando esse início de mudança que ameaça corroer um dos pilares do negócio da Estrela da Morte (para quem chegou agora, era assim que chamava a Globo em outra era da Coleguinhas, referindo-se, obviamente, a sua capacidade destruidora de mundos, igual a do satélite imaginado por Darth Vader): o Fundo Setorial Audiovisual (FSA), da Ancine .

Esse fundo – composto por dotações do Orçamento Federal e da arrecadação da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) e algumas outras fontes -, juntamente com a Lei 12.485/2011, que obriga a veiculação de um percentual mínimo de produções brasileiras na TV paga (aqui a lei e aqui o seu faq), estão abrindo caminho para que ocorra aqui o que vem acontecendo nos EUA: a produção de séries de alta categoria por fora das “majors”. É devido a esse processo que as melhores séries americanas hoje – tipo “Breaking bad”, “Mad men”, “Game of thrones” e “House of cards” – não saem mais da NBC, CBS ou ABC, mas da HBO, AMC, Netflix e outras. Dessa forma, os atores, que estão acorrentados à Globo, agora vislumbram a oportunidade de, no médio prazo, terem um mercado de trabalho que permita com que possam exercer seu ofício sem precisar fazer tantas concessões.

Como um outro “sistema de suporte à vida” da Estrela da Morte – o telejornalismo – também está sendo corroído até com maior velocidade (ver aqui) , a pergunta que encerra o texto do Alto Conselheiro, se não pode ser respondida com exatidão, pelo menos tem boa indicação de resposta: a vida da Globo não vai mais ser tão fácil quanto era e seu poder tende a declinar paulatinamente.