Um maestro alemão, uma música russa, uma rua de Ramos, um garoto e a internet

A internet tem Lulu, Pepeka e gente que utiliza esses e outros aplicativos escrotos. Mas também proporciona momentos sublimes como essa experiência quase mística que estou vivendo.

Corria, creio, o ano da graça (ou desgraça, foi o do AI-5) de Nosso Senhor de 1968 – minha família ainda morava na rua Uranos, 771, Ramos, numa pequena casa que hoje está ao lado de um hospital de bonecas (é, existem ainda estabelecimentos como esses nos subúrbios do Rio) -, quando meu pai chegou com um disco para tocar em nossa vitrola (não me lembro dela, pois, logo depois, seria substituída por uma gloriosa radiola Matinatta, da Telefunken, da qual você poderá ver um exemplar em razoável estado de conservação aqui ). Era um “long play” de Bert Kaempfert, trompetista alemão que, com sua orquestra, fez grande sucesso , uma estrela internacional do selo Polydor nos anos 60.

Por anos e anos, esse disco me acompanhou pelas várias mudanças que a minha família era obrigada a fazer devido à chamada “denúncia vazia” (aqui), um tormento muito maior para os inquilinos naquela época do que é hoje. No entanto, um dia fui procurá-lo e não o encontrei mais. Ficou uma tristeza nunca totalmente superada e, também, na memória, a imagem da capa – um jovem casal andando de mãos dadas, à noite, sob um caramanchão – ela de vestido branco, cintura fina, alargando embaixo (acho que as moças o chamam “ballonné”), ele de smoking, ambos belos e elegantíssimos.

Pois é, eu gostava desse disco tanto quanto gostava do “Pendulum”, do Credence Clearwater Revival (se não está ligando o nome ao vinil, clique aqui), que, após uma profícua estadia lá em casa, meu pai devolveu ao amigo que o emprestara em troca de um da Claudete Soares  – do qual também gostava, mas não tanto (e minha sobrinha mais velha ainda acha que tem um gosto musical eclético…).  A bolacha do CCR, achei num sebo no Catete, lá pelos idos de 87 ou 88, mas do de Kaempfert jamais encontrei nem sinal.

Até ontem.

Vagueando pela last.fm, dei de cara com a versão clássica de “Midnight in Moscow” , de Kenny Ball and his Jazzmen. Essa música era a minha favorita no disco perdido . “Bem, quem sabe…”.  Sim, lá estava ele. Inteirinho. A capa era completamente diferente, mas as músicas – jamais as esqueci, nem mesmo a sua ordem – eram as mesmas: “Midnight in Moscow”, “Hava Nagila”, “Autumn Leaves” , “On a little street in Singapore”… Eu tinha achado.

Agora, com licença que acabei de baixar o disco do maestro Kaempfert do iTunes. É hora de volta à rua Uranos.

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