Perguntas sonháticas

Bom, já que parece que não tem jeito, lá vai…Não tenho elementos ainda para analisar os efeitos da adesão de Marina ao PSB. Esses elementos virão com o tempo, por meio de respostas a algumas perguntas básicas:

1.Marina vai transferir votos? Sabemos que só quatro caras até hoje transferiram votos, comprovadamente, em eleições brasileiras: Getúlio, Nove-Dedos, Brizola e Maluf (e este só em eleição municipal. Em São Paulo, ok, mas ainda assim municipal). Todos, gostemos ou não deles, são líderes incontestes de correntes políticas historicamente estruturadas e com longa história pessoal de eleições e embates políticos. Marina não tem esses dois fatores atrás de si;

2.Além disso, os quatro acima citados, como qualquer político, até traíram alguns princípios, mas jamais traíram seus eleitores, que, por isso, os perdoaram. Marina já começa traindo os seus. Pois, vamos convir, depois de passar anos dizendo aos “sonháticos” que não se comportaria como “política tradicional” – o que repetiu ontem, de outro modo -, ela fez o que qualquer político do tipo que ela criticava faria: na hora da tempestade, pulou rápido para um bom barco a fim de concorrer a eleições e garantir um naco de poder. Esse movimento, no caso dela, tem nome: traição. O pessoal que vota nela, que é mais informado e crítico pouquinha coisa, vai perdoar?

3.Nenhum dos quatro do item 1 tem uma mente religiosa monoteísta. Nada contra esse tipo de cosmovisão, veja bem, só que quando ela casa com a política costuma dar problema. É que se o cara acredita que a História é apenas o cumprimento de um plano traçado por Deus, a tendência é que o sujeito/a passe a acreditar que ele/ela é enviado/a pelo Senhor para cumprir uma parte do tal plano (se não todo, dependendo da personalidade da pessoa). Como “enviado/a de Deus”, por princípio, é guiado/a por Ele e Ele, também por princípio, não erra, segue-se que o/a enviado também não erra e qualquer coisa que faça estará correta. Você, esperto/a como é, já viu onde isso pode chegar, né? (Por falar nisso, a foto da capa do Globo do hoje é muito interessante, se analisada sob esse ponto de vista). Assim, para o/a enviado/a de Deus, se ele/ela se unir a alguém quase do lado oposto não tem problema. Marina não deve achar nada demais se aliar um descendente e continuador do coronelismo nordestino, mas, de novo, o eleitorado dela vai aceitar?

4.Esta pergunta é ainda mais pertinente no que se refere ao exército de voluntários que correu atrás das assinaturas para viabilizar a Rede. É que as 420 mil e tantas assinaturas e o trabalho abnegado desses voluntários foi jogado no lixo pela sua líder. Afinal, a Rede morreu, certo? Se sair a vice pelo PSB (o que deve acontecer, senão o que ela teria ido fazer lá?) e vencer a eleição, Marina não teria como abandonar o partido para reiniciar o processo de construção de sua própria agremiação, no mínimo porque todos os seus aliados já terão arrumado cargos e não vão arriscá-los, pois as agendas de Marina e Dudu Campos vão se chocar rapidamente no hipotético exercício do poder e adivinhe com quem os hoje aliados marineiros ficarão nessa hora? Muitos voluntários ludibriados vão continuar sonháticos, mas serão a maioria e terão o mesmo aguerrimento na hora da eleição?

5. Um ponto que deveria ter escrito lá em cima, mas vai agora: quando falo de eleição estou falando do segundo turno, ok? Não sei de onde tiraram a ideia de que Dilma poderia vencer em primeiro turno. A conjunção de fatores que permitiu FHC vencer em 98 vai demorar a se repetir, se é que vai um dia. Juntar, na mesma eleição, a caneta a cheia de tinta da Presidência, a disposição de um grupo de quebrar o país para se manter no poder, o apoio total e irrestrito da mídia para esse projeto e ainda o incentivo (mesmo um apoio discreto) do capital internacional não é tão mole assim.

Enfim, é isso. Vamos ver como vai ficar. Agora, vamos tratar de assuntos mais estratégicos, novos e interessantes?