Dia de derrota, véspera de vitória. De Pirro.

O caráter político do julgamento da AP 470 – o tal Mensalão – ficou muito claro semana passada depois que o ministro Celso de Mello, mantendo seu entendimento anterior, definiu que 12 dos réus condenados teriam direito a uma revisão das penas a que foram condenados por crimes de lavagem de dinheiro e de formação de quadrilha. Enlouquecidos com a suposta derrota, num primeiro momento, os veículos de comunicação, principalmente por meio de colunistas-amestrados, alardearam que haveria um novo julgamento, com a possibilidade de absolvição dos tais mensaleiros.

Tremendo erro de avaliação, como você pode ler nesse artigo do advogado José Nabuco Filho, publicado no Diário do Centro do Mundo. Uma série de tabelas analisa, uma a uma, as possibilidades de mudança nas penas e nos regimes de prisão dos réus. Nelas, pode-se constatar que apenas dois dos 12 acusados – que nunca tiveram importância para os veículos de comunicação durante todo esse tempo por não serem políticos do PT – podem ser absolvidos totalmente, e, assim mesmo, se os dois mais novos ministro do Supremo, Teori Zavascki e José Roberto Barroso, votarem pela absolvição. José Dirceu, a caça principal, José Genoíno, João Paulo Cunha e Delúbio Soares continuarão condenados a cumprir pena de prisão.

Depois que alguns juristas reacionários, como Miguel Real Jr., os avisaram os “barões da mídia” reduziram um pouco tom. Afinal, terão o que sempre quiseram – as imagens dos petistas sendo presos – para badalarem ao máximo, visando enfraquecer o projeto de país que vem sendo construído nos últimos 10 anos (muito lentamente para meu gosto), qual seja reduzir o de reduzir a desigualdade social, com a inclusão das grandes massas pobres entre os beneficiários da melhora econômica do Brasil. Com a obtenção das imagens, assim, os “barões” terão conseguido uma vitória.

Só que ela será de Pirro (o que é vitória de Pirro? Leia aqui). É que o raciocínio dos “barões” e seus comandados reacionários está baseado numa premissa errada – a de que um julgamento na esfera jurídica, transforma-se, automaticamente, num julgamento político. Pelo que lembro, nos tempos modernos (e, pelo que sei, nos antigos também), essa transformação só ocorreu no Julgamento de Nuremberg – e ainda assim porque o mundo estava sob o impacto recente, na época, das circunstâncias aterradoras da Segunda Guerra Mundial.

A transmutação é tão difícil que chega a ser perigosa para quem a tenta realizar – é só lembrar, para ficar no exemplo, o que aconteceu no júri de Adolf Eichemann: a ideia do primeiro-ministro israelense Ben-Gurion era julgar mais uma vez o Nazismo, de modo a que o Holocausto não fosse esquecido, mas Hannah Arendt acabou pondo em julgamento também a própria história dos judeus massacrados durante a guerra.

Parentêses aqui. Olha só…Sei que vou ser chato, mas leia “Eichmann em Jerusalém”, vai…Não é tão complicado assim – até porque Hannah escreveu a primeira versão do texto para uma revista – e o livro é fundamental para a gente entender o mundo em que vivemos. Exemplo, além do julgamento do tal do Mensalão? A espionagem dos EUA sobre tudo e todos e o heroísmo de Edward Snowden. Se não quiser encarar o livro a seco, dá uma lida nessa ótima resenha e veja o filme, que ainda está em exibição em alguns dos cinemas do Estação. Fecha parênteses.

Voltando…Assim, a tal vitória de expor os petistas à execração pública tem tudo para voltar-se contra os “barões” e os reacionários exatamente na eleição do ano que vem, pois haverá dois julgamentos políticos – o do governo Dilma e os dos próprios veículos de comunicação – vale dizer, o jornalismo hoje praticado no Brasil. E, diferente do de Eichmann, será um julgamento “soma-zero”: se Dilma perde a eleição para qualquer candidato da reação – seja ele Aécio, José Serra, Marina ou Dudu Campos -, os “barões” vencem; se Dilma é reeleita, eles perdem. De novo.

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