A verdade continua dura

Ainda sob o impacto do pedido-de-desculpas-que-não-foi das Organizações Globo, estava eu flanando pelo site de memória do Globo, a fim de checar ideias para o meu futuro mestrado em História, quando cheguei ao dia 18 de junho de 1970. A manchete da edição era a vitória da seleção canarinho sobre a uruguaia por 3 a 1, que garantia a ida à final da Copa do México e ainda exorcizava o fantasma do Maracanazo de 1950.
Passando uma geral na página, dei com os olhos no editorial intitulado ”A campanha e os fatos”. Tive um mau pressentimento e fui conferir. Li o que vai abaixo.

Editorial do Globo, 18/06/1970

Já está aí? Voltou da ida ao banheiro para vomitar? Pois vamos lá.

Esse editorial detona de vez a ideia, passada pelo tal pseudopedido de desculpas, de que a colaboração das Organizações Globo com a ditadura militar pós-64 tenha sido episódica, um erro lamentável, que não teve seguimento quando os militares mostraram a verdadeira face do regime que impunham ao Brasil.

Se é que ainda estava de pé, essa ideia não se sustenta diante de ninguém que lê esse editorial. Ele não é apenas detestável politicamente como simplesmente mentiroso, como fica completamente claro ao retratar os casos de dois dos 60 presos políticos trocados pelos embaixadores de EUA e Alemanha e pelo cônsul japonês.

Agora sim, aos fatos.

O “rapaz de origem japonesa” do texto é Chizuo Osawa, o Mário Japa, da VPR. Segundo o site DHnet, as torturas a que foi submetido, negadas pelo Globo, foram constatadas por médicos do próprio Exército:

“(…)Foi examinado no Hospital Geral de São Paulo (onde entrou a 2 de março de 1970 e saiu a 14, do mesmo mês, pelos Coronel-médico Dr. Caio Tavares Iracema, Major-médico Dr. Justo Claret Nogueira e Capitão-médico Dr. Remígio Loureiro da Silva. Constataram, entre outras coisas:
‘Abdômen – equimoses em fase involutiva também nos flancos direito e esquerdo. Discreta hepatomegalia, à inspiração profunda. (…) O paciente refere diminuição do movimento de flexão do pé sobre a perna esquerda, bem como diminuição da força do referido’.”

Tudo isso num acidente de carro, segundo O Globo. Aliás, se você acha que tem estômago, dê uma olhada no texto em que encontrei a descrição acima (aqui)

Revoltante, certo? Para mim, porém, pior foi a tentativa de descaracterização do que aconteceu com Vera Sílvia Magalhães. Dificilmente alguém poderá exagerar a importância e a coragem dessa mulher magnífica, que, junto com dona Inês Ettiene Romeu, está no lugar mais alto do meu pódio de herois. Sabe de uma coisa? Não vou nem me alongar mais sobre esse caso. Veja logo esse depoimento concedido por Vera, que morreu em 2007, aos 59 anos, à TV Câmara (a parte que O Globo disse que não existiu começa aos 42 minutos) e entre para o rol de seus admiradores, se é que lhe resta alguma coisa de humano (essa dica é ainda mais incisiva para os jovens que vão às manifestações hoje em dia).

Depois de ter lido o editorial do Globo e a página do DHNet e ter visto o depoimento de Vera Sílvia, creio que você concordará comigo: não há, e jamais haverá, perdão para o comportamento das Organizações Globo durante a Ditadura de 64.

A verdade é dura: as Organizações Globo apoiaram a ditadura. Sempre.