As OG culpam o povo pelo erro de terem apoiado o Golpe de 64

Você provavelmente não vai acreditar, mas existem direitistas inteligentes. Juro. Eu mesmo conheço três. Não preciso dizer que nenhum deles trabalha em jornais – um até o fez, mas não aguentou muito tempo e se mandou –, algo que não me surpreende: deve ser duro trabalhar numa instituição tão inepta que, quando tenta ajudar o seu lado, acaba atrapalhando.

Esses amigos de direita que pensam, por exemplo, não ficam ressentidos quando o governo cria e implementa programas como o Bolsa Família”, o ProUni ou, agora, o Mais Médicos. Podem não gostar e até criticar, mas não ficam furiosos. Afinal, em tese, esse é um governo de esquerda e, portanto, teria mesmo, por sua visão de mundo, preocupar-se com os mais pobres e desprotegidos dentro da sociedade e trabalhar para eles. Se seu foco fosse os mais ricos e com mais poder, não seriam governos de esquerda. Aliás, é apenas quando o governo procura auxiliar os eikes da vida com dinheiro público, atacando as bases do sacrossanto mercado, que esses direitistas inteligentes saem do sério – com scanias de razão, a meu ver. Afinal, se é para ter políticas de direita quem faria melhor que partidos de direita?

Infelizmente, essa capacidade de entender o mundo da maneira que é não chega aos veículos de comunicação, o que provoca sucessivas derrotas políticas para os barões de mídia, especialmente para as Organizações Globo. É uma tradição brasileira – o lado que for apoiado pelas OGs será o lado politicamente derrotado. Essa verdade foi referendada de maneira sensacional quando as OG admitiram publicamente que erraram ao apoiar o Golpe de 64.

Poderia ter sido uma autocrítica válida. No entanto, como se trata dos Marinho, não foi algo direto, claro e simples, tipo “erramos feio, foi mal e tentaremos não errar de novo”. As OG preferiram tergiversar e disseram que, naquela época, o povo brasileiro exigiu a deposição de João Goulart, “apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais.” Ou seja, a culpa do erro de Roberto Marinho foi, na verdade, do povo, não dele. O fato de O Globo ter sido um dos dos responsáveis – assim como outros veículos, como, claro, o jornal tratou de enfatizar – pela criação de clima de agitação que deu ensejo às tais passeatas – não foi incluído na autocrítica global.

Os fatos, devidamente reconstituídos pelos historiadores, já desmentiram esses absurdos, mas mesmo que os profissionais da História não tivessem feito seu trabalho, era só apelar para a tradição política brasileira: desde quando as Organizações Globo estiveram ao lado do povo brasileiro em alguma coisa?

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