O jornalismo se move, mas os coleguinhas…

Dois eventos na semana que passou demonstraram a dificuldade dos coleguinhas em relacionar fatos, mesmo quando eles são próximos pelo tempo e pelo assunto, que, inclusive, é seu ganha-pão. Os dois fatos foram a entrevista dos “ninjas” Bruno Torturra e Pablo Capilé no Roda-Vida, da TV Cultura, e a compra do Washington Post por Jeff Bezos, o criador da Amazon.

O ponto de conexão óbvio entre os dois fatos é que ambos foram protagonizados por gente do mundo digital e em rede que avançaram sobre a comunicação do mundo analógico e hierarquizado O problema parece ser a falta de uma visão mais larga por parte dos jornalistas da grande imprensa. Considere o que aconteceu no Roda-Vida. Durante todo o tempo do programa, a bancada, composta por seis jornalistas que, claramente, se consideram papas da profissão, procurou desqualificar a Mídia Ninja, pondo em questão o fato de o coletivo Fora do Eixo, sua nave-mãe, ter recebido verba de R$ 800 mil da Petrobras, obtida em edital público. Para os papas, isso fere de morte a integridade do MN. Eles, obviamente, esqueceram as verbas governamentais de publicidade recebidas pelos meios de comunicação que lhes pagam os salários.

O meu momento favorito, porém, foi quando a ombudsman da Folha, Suzana Singer, atacou o MN por ser parcial na cobertura das manifestações e atos dos movimentos sociais. Capilé mandou no ângulo ao lembrar –  sem citar nomes – do escândalo do propinoduto tucano escavado no Metrô de São Paulo, dizendo que, no código de imparcial da grande imprensa, um assalto aos cofres públicos como esse é qualificado por cartel ou por ação de quadrilha, dependendo do partido que o praticou. Aí, o apresentador Mário Sérgio Conti tomou as dores e defendeu a tal imparcialidade dos grandes veículos, talvez já pensando de onde virão os próximos salários, já que este Roda-Vida com o MN era o último que ele apresentava: fora demitido pela TV Cultura, sendo substituído na condução dos programas futuros pelo imparcialíssimo Augusto Nunes. Uma maravilha.

O que fez toda essa falta de entendimento mais significativa – e que mostrou o quanto os papas-coleguinhas estão fora da órbita do planeta Terra –, porém, aconteceu fora do estúdio. Numa daquelas ironias que me fazem amar a História de paixão, no mesmo dia em que o Roda-Viva foi ao ar, Jeff Bezos comprou a preço de banana em fim de feira (US$ 250 milhões) o Washington Post, um dos três mais importantes jornais dos EUA.

Obviamente Bezos não é ninja, mas não é esse o ponto. O essencial é que um ser proveniente completamente do mundo digital em rede adquiriu, na bacia das almas, um meio impresso ícone – o jornal que derrubou um presidente dos EUA, catzo! – e obrigou os donos do outro jornal ícone, o New York Times, a mandar um email geral para a redação admitindo estar “atordoados” com a invasão do ser digital, mas assegurando que o NYT não será vendido. Hipótese esta que tinha feito as ações do jornal subirem em Wall Street, et pour cause.

Como a maioria esmagadora dos coleguinhas brasileiros não conseguiram correlacionar os fatos, fica-se com a certeza de que eles não estão sentindo o chão mover-se rápido sob seus pés e muito menos sacar a direção que ele vai tomando. Se não ficarem espertos, serão jogados para o alto, indo fazer companhia àqueles desenhistas de iluminuras de Bíblia pré-Gutemberg.

2 comentários sobre “O jornalismo se move, mas os coleguinhas…

  1. Eles não entenderam nada,catzo.Agora caro colega.Agora com Augusto Nunes,nós não vamos entender nada!

  2. Pingback: A relação entre Mídia Ninja e a compra do Washington Post | Araci News - Informação sem manipulação!

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