Mistura-e-manda

Bom, como tem muita coisa para comentar, resolvi fazer um picadinho geral:

1. Você não leu a pesquisa CNI-Ibope que disponibilizei aqui, leu? Tsc, tsc, tsc…Se tivesse lido veria alguns dados muito interessantes que os coleguinhas ou também não leram, ou leram e calaram para correr o risco de estragar a festa (e derrubar as pautas).

O principal deles é que 15% dos entrevistados teve alguém que mora no domicílio participando das manifestações (a pessoa mesmo e/ou alguém que more com ela). Assim, não dá para dizer que foi movimento de massa ainda mais quando se vê que a presença nas ruas foi maior entre os mais ricos e mais jovens.

No entanto, esses dados não desmerecem a importância política das manifestações – afinal, 89% dos entrevistados as apoiam (embora 39% retirem esse apoio em caso de violência, uma ressalva espontânea dos ouvidos, já que não estava no questionário). Assim, além do evidente interesse político da mídia em dar destaque às manifestações, elas tiveram mesmo importância, mesmo sem ter sido uma atividade de massas como foram, por exemplo, as Diretas Já. Mais uma indicação (como se já não bastassem um monte de outras) da importância da redes sociais.

Aliás, a pesquisa mostra também que os veículos de comunicação ou não entendem o que se passa debaixo de seus narizes ou distorcem mesmo o que vêem. Nada menos de 43% dos entrevistados que se disporiam a participar de novas manifestações o fariam para exigir mais investimentos em saúde – contra a corrupção (motivo recorrente desde Carlos Lacerda) ficou com 35%; por mais segurança pública com 20%, e contra a inflação, 16%. Contra os governos (todos) ficou com apenas 5% e contra o governo federal, especificamente, com 4%, atrás até dos gastos com a Copa (6%). Ou seja, o governo federal identificou corretamente o que diziam as ruas quando lançou o programa “Mais Médicos”.

Tem outros números legais na pesquisa. Dá uma olhada lá, vai…

2. Os escândalos dos propinodutos tucanos de São Paulo (de onde saíram dutos que abasteceram o partido em várias partes do país. Você pode conhecê-lo aqui, aqui e aqui) são sabidos desde 2007, pelo menos. Eram casos tão escandalosos, mas tão escandalosos que até os grandes jornais de São Paulo, lhes deram alguma atenção – nem que fosse apenas para permitir aos tucanos de plantão no Bandeirantes dizerem que tudo era invenção petista. Novidade mesmo, portanto, foi a Siemens dar uma de Tommaso Buscetta (mais conhecido como Don Masino) e ter entregado a máfia toda.

3. O Globo vem me submetendo a uma sucessão de casos de “vergonha alheia” muito desagradável ao publicar matérias assinadas por coleguinhas outrora respeitáveis. Depois da Dona Míriam com sua entrevista com o Joaquim Barbosa, o jornal publica hoje uma lamentável tentativa de desqualificação do Mídia Ninja, assinada por um colega que muito respeito (ainda, apesar de hoje). Fiquei realmente muito triste. De verdade mesmo, sem sarcasmo ou ironia.

4. Comecei a desconfiar de que a vaca da Abril estava caminhando para o brejo quando o telemarketing da empresa passou a ligar para mim várias vezes por semana, em casa e no trabalho, para tentar vender assinatura da Veja, ainda por cima quase de graça. Só deram um tempo depois que, da última vez, falei pra moça que considerava a revista um lixo e que não a assinaria nem que fosse a última publicação sobre a Terra. Desconfio, porém, que, do jeito que a situação está preta, eles vão voltar a me atazanar de novo em breve.

5. Misturando 3 e 4, na matéria da Dona Míriam sobre os índios Awá em que o que vale mesmo são as fotos do Sebastião Salgado – a Annie Leibowitz da miséria – tem uma informação constrangedora: O Globo se obrigou a informar que a passagem da repórter foi paga pelo jornal. É que normal agora, nesse tempo de vacas magérrimas, é os repórteres só viajarem por conta de empresas e instituições.