A marcha (batida) da insensatez

A insensatez brasileira fica exposta a uma luz intensa se apenas passamos dez dias fora do Bananão. Após esse curto período – no qual fiz questão de ficar alheio ao que acontecia aqui, o que não foi difícil já que somos completamente ignorados pela mídia gringa se não houver alguma boa má notícia sobre o país – , fui recepcionado por uma senhora, digna representante de espécimes que habitam a Gávea (a vi pedindo um táxi para esse aprazível bairro). Enquanto esperava o registro do pagamento de duas caixas de uísque e outras compras que fizera no free shop, via as cenas de vandalismo no Leblon, ocorridas semana passada. “Se o Cabral tivesse um mínimo de honra, iria embora. O povo não quer mais ele”, comentou com outra consumidora, do mesmo tipo, que concordou.

Senhoras como essa confundirem democracia com a lei do mais forte – de quem grita mais alto e mais perto das câmeras de TV ou de quem tem as armas mais letais, o passo seguinte – é desagradável, mas não chega a ser surpresa. É muito provável que a avó dela estivesse em alguma Marcha Com Deus pela Liberdade há quase 40 anos. Comecei a coçar a careca, preocupado, depois, quando li dois colegas que respeito e gosto resvalarem na maluquice que parece ter tomado conta da cabeça de muitos nos últimos tempos, especialmente no Facebook:

1. Um colega reclamou das críticas dirigidas à imprensa sobre o desequilíbrio da cobertura entre o tumulto do Leblon e do massacre da Maré, acontecido dias antes. Os críticos dizem que o escândalo feito pelos coleguinhas foi maior no primeiro caso, quando houve depredações e feridos, mas não mortos como no caso da Maré, e que a diferença de tratamento se deveu à diferença das médias das contas bancárias entre os habitantes dos dois bairros. O coleguinha disse que não houvera diferença alguma no tratamento, apenas que havia mais imagens do primeiro caso do que no segundo e, por isso, por um critério jornalístico de escolha de imagens, pareceu que houve um desequilíbrio.

Francamente, não costumo comentar assuntos sérios no FB. Acho tremenda perda de tempo (quem quer discutir algo seriamente não tem como fazê-lo via FB ou twitter), mas dessa vez tive que obtemperar – é um coleguinha com nível tal que podemos obtemperar com ele – em respeito ao escriba. Senti-me obrigado a lembrá-lo de que o caso Leblon x Maré não foi o primeiro – e, tudo indica, não será o último – em que há mais imagens do que acontece no lado rico do Rio do que no lado pobre – quando há imagens do lado pobre. É essa a diferença fundamental que está sendo questionada pelos críticos. Tirando a honrosa exceção de O Dia – que faz um jornalismo regional digno –, para os demais órgãos de comunicação, o Rio termina sob a ponte da linha férrea que dá acesso à estação da Leopoldina.

Deve ter sido um bom argumento, pois o coleguinha, que não costuma fugir a um debate, dessa vez, mesmo sendo mencionado no comentário, não redarguiu (ele tem nível para redarguir).

2. O segundo comentário que me preocupou foi sobre a visita do Papa Francisco ao Rio. Outro coleguinha queixou-se que a vinda do Papa mudou a vida dos cariocas por incompetência do governador e do prefeito. Que ambos são incompetentes, nenhuma dúvida, só que a visita do Vigário de Roma a qualquer cidade do mundo modifica a rotina dos cidadãos que nela vivem. Quando essa visita é motivada por uma Jornada Mundial da Juventude, então o caos é praticamente inevitável. Estive em Madri ano passado e os madrilenhos ainda suspiravam, com um misto de saudade e irritação, em relação aos mais de um milhão de jovens peregrinos que tomaram a cidade de assalto um ano antes. E olha que a capital espanhola é uma cidade europeia, o que quer dizer organização, e não estava em obras para uma Copa do Mundo no ano seguinte e os Jogos Olímpicos três anos depois (estão todos doidos para pegar um desses megaeventos nos próximos anos pelo que eles significam em termos de grana para a cidade).

Minha preocupação vem do fato de que um jornalista normalmente comedido tenha se deixado afogar pelo tsunami de resmungos e chororôs que tomou conta das redes sociais nos últimos tempos. Ele deixou de lado as confiáveis boias da informação precisa e do discernimento num assunto tão simples que apenas o bom-senso teria evitado que ele escrevesse uma bobagem claramente ditada pela paixão politica e não pelos fatos, algo pernicioso para todos e fatal para jornalistas profissionais.

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2 comentários sobre “A marcha (batida) da insensatez

  1. Eu, que não tenho as mesmas reservas quanto ao Facebook, compartilhei o texto brilhante em que a Eliana de Souza Silva, moradora da Maré e diretora da área de extensão da UFRJ, comentava não sem certa tristeza uma análise recente no RJ TV em que a pessoa alertava que fuzil ‘não é para área urbana, para manifestação, mas para confronto com os marginais, ou operação em comunidade’. Tiro em favelado pode?
    Em entrevista recente – a do chororô quase botafoguense,do comandante da PM – o secretário de Segurança, José Beltrame, mostrava alívio por não ter ‘morrido ninguém nas manifestações’. Esqueceu da Maré, onde um tumulto causado por um arrastão resultou em uma intervenção desastrada e desastrosa do Bope. Para um oficial atingido, dez moradores mortos, oito sem passagens anteriores pela polícia. Tiro em favelado pode?
    Dito isso, esclarecida minha consciência de classe de suburbano, esclareço: boa parte das comparações é movida menos pelo desejo de justiça para a Maré do que pela raiva do Leblon. De gente que, tendo renda suficiente para isso, moraria feliz na vizinhança do Cabral…

    • Desconfio, caro Cezar, que boa parte dessas manifestações de raiva vem de gente com renda para ser vizinha do Cabral que está um tanto incomodada com a perda de espaços físicos e simbólicos para os mareenses e outros vindos de comunidades.
      Aliás, ficamos combinados que o próximo governador vai morar no Palácio Laranjeiras, que existe pra isso. Não tem essa de governador (presidente, prefeito) ser igual aos outros, com direito a morar em sua casa. Eles são encarnações do Executivo e como tal devem morar nos espaços reservados a eles.

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