“Velhas surdas”, aparelhos Telex e a reforma política

Aos poucos, as coisas vão se aclarando e as posições sendo tomadas para os próximos embates políticos, que começam agora, após as câmeras que cobriram a Copa das Confederações terem partido. O ajeitamento está se dando até forma clara, pondo em campos antagônicos dois contendores: de um lado, quem tenta ouvir as ruas, mesmo que com a ajuda de aparelhos Telex, e defende o plebiscito sobre a reforma política; do outro, quem se comporta como a velha surda da Praça é Nossa e quer o referendo.

Como já escrevi, a reforma política é a “mãe de todas as reformas”. Se ela não for feita, esqueça a redução da corrupção porque os dirigentes políticos dos esquemas de corrupção se elegem graças à atual configuração eleitoral do Brasil. Os votos são dispersos de tal modo e a caraterização ideológica é tão fraca que fica fácil quem tem dinheiro suficiente eleger-se, bastando distribuir a grana com sabedoria em diversos locais – uma aplicação política da teoria da distribuição dos ovos em cestos diferentes. Uma vez eleito o candidato, o atual sistema eleitoral permite a ele montar esquemas de corrupção que irriguem a plantação de votos dentro da máquina estatal e nos parlamentos, os quais, mesmo que, por um azar total, uma eleição seja perdida, faz com que sua influência seja mantida por um bom tempo.

É por isso que as “velhas surdas” defendem o referendo e combatem o plebiscito – um grupo que inclui a grande mídia, como não poderia deixar de ser. Uma reforma política que tenha como guia o que for definido pelos atuais membros do Congresso Nacional será apenas uma reprodução – com mais ou menos “pancake” – do que está aí. Afinal, os caras foram eleitos por estas regras e, portanto, não têm interesse algum em mudá-las de verdade. Já o pessoal que usa aparelhos Telex está morrendo de medo, mas como enxerga pelo um palmo adiante do nariz, sabe que, se não houver uma consulta que permita direcionar, de baixo para cima, a reforma política, ela será apenas uma versão 1.1 do que está aí. Nesse caso, a frustração crescerá, embora num primeiro momento pareça ter se reduzido, e o futuro torna-se completamente imprevisível.

Muitas são as maneiras das “velhas surdas” tentarem tergiversar sobre a reforma política, mas duas se destacam: “os manifestantes não pediram reforma política, mas melhor saúde, educação e transporte público” e “não vai dar tempo para fazer a reforma política até a eleição de 2014”. A primeira é de um cinismo atroz por reduzir o movimento de massa a uma questão burocrática, de gestão – é só ter mais dinheiro e uns bons tecnocratas que o país se tornará o paraíso na Terra. Essa posição tenta esconder o óbvio – que a alocação de recursos, o passo anterior à boa gestão, é uma definição política, ou seja, a ser definida pelos representantes do povo. Se não for assim, pode-se ter uma sistema de saúde gerido como no primeiro mundo na Barra ou nos Jardins convivendo com um de quarto mundo em Campo Grande ou na Zona Leste de São Paulo. Opa! Mas não é que já é assim?!…

O segundo argumento antiplebiscito é que não haverá tempo para implementar a reforma política antes de 2014. Outra mostra de cinismo. Quem disse que precisa ter toda a reforma política implantada ano que vem? Pode ser fatiada, desde que duas medidas sejam proibidas já para o próximo pleito:

1. Proibição de financiamento de campanhas por empresas;
2. Proibição das coligações para eleição de deputados (o ideal seria para tudo, mas vão me acusar de radical).

Só com essas duas medidas simples, a mudança já seria imensa. Outras normas de profilaxia política – como a adoção do voto distrital e a proibição da reeleição para cargos do Executivo, mesmo com aumento de tempo no cargo, para os mandatários eleitos a partir de 2018 – poderiam esperar as próximas eleições sem grande prejuízo.

Assim, não há como tergiversar mais: ou se faz a reforma política ou o país, nos próximos anos, vai se aproximar perigosamente de mais uma daquelas sístoles políticas diagnosticadas por aquele nosso conhecido teórico autoritário, Golbery do Couto e Silva (que o Tinhoso lhe dê sempre especial atenção), com todo o retrocesso que acarretará ao Brasil.

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