Como continuar pedalando?

As passagens baixaram. Beleza. Uma parte cumprida. E agora, liderança? Fazemos o quê?

As opções que vejo:

1. Retirada organizada: Não vou esconder que acho a melhor. Pode-se sair cantando vitória – até porque foi vitória mesmo -, mas tem o desafio de não acabar com a mobilização. Para isso tenho uma proposta:
“Ô, _____ (preencher com o nome do prefeito), vamos discutir mobilidade urbana a sério. Uma comissão – três nossos, três seus e o MPF do _____ (preencher com o nome da unidade da Federação) para mediar e dar voto de Minerva. A comissão terá 60 dias, no máximo, para abrir todas as planilhas e propor uma solução para o financiamento do transporte coletivo público. Você envia o resultado para a Câmara dos Vereadores e nós nos comprometemos a ir para porta pressionar para os vereadores aprovarem.

Mas não acabou não. Vencida essa fase, a comissão prossegue reunida. Em um ano, no máximo, depois de ouvir especialistas de empresas e da Academia, propõe um Plano Estratégico de Mobilidade Pública para ser implementado nos próximos 20 anos, começando ano que vem mesmo. O Plano também será enviado por você para Câmara dos Vereadores e a gente se compromete a ir lá de novo pressionar pela aprovação.
Basicamente é isso. Ah! As reuniões serão abertas à imprensa e terão 100 senhas distribuídas por ordem de chegada, a cidadãos interessados em acompanhá-las. Nós nos comprometemos a operar isso, e também a gravar tudo e botar na internet.”

2. Ficar na rua: Essa opção tem alguns obstáculos sérios. O primeiro é aquele que já abordei – a falta de um objetivo político estratégico. Hoje, só vejo dois: derrubar a Dilma ou instaurar o socialismo (ou anarquismo, dependendo da correlação de forças) no Brasil. O primeiro, no meu modo de ver, é meio fraco. Afinal, se é para mudar governo, é só esperar o ano que vem, como disse o Clemente, dos Inocentes, e botar Aécio, Dudu Campos ou Marina no Planalto – pressupondo-se, claro, que encontremos os buracos em que os três se enfiaram desde o momento em que tudo isso começou. O segundo é bem melhor, mas a sua implementação é um tanto ou quanto complexa, né?

De qualquer maneira, uma vez definido qual o objetivo político estratégico, há dois problemas urgentes a tratar – como deter os vândalos e provocadores e chamar o povo pobre para a rua. O primeiro problema não é de somenos. Os atos de vandalismo e provocação têm aumentado de manifestação para manifestação e essa escalada não vai parar, sabemos disso, principalmente quando os atos forem convocados para áreas comerciais. Afinal, já que a polícia não pode reagir – se o fizer, será chamada de truculenta, repressora, antidemocrática etc – os bandidos vão se sentir tentados a ficar por perto e, a fim de faturar algum, apoiarão provocadores como esse aqui.

(Aqui um parêntese. Há um pessoal “radical” facilmente encontrado em bares de Ipanema e Gávea, no Rio, e Vila Madalena (Sampa), e em cátedras universitárias de todo o país, especialmente na área de Humanas. Tenho um rancor particular e profundo contra essa gente, que, no momento, pelo que deu pra ver por aí, defende, por exemplo, que os vândalos presos (incluindo o pessoal do item acima) são “presos políticos” e por isso devem ser “anistiados”. O pessoal do parágrafo de cima, na hora do vamos ver, pelo menos, estará nas ruas batendo na gente, ao lado dos meganhas. Já essa galerinha “radical chique” o máximo de proximidade que terá da polícia será tomar um capuccino naquele simpático e típico café que fica em frente à Chefatura de Paris.)

Voltando…

Resolver a questão acima é fundamental para levar os pobres para a rua. No momento, vamos combinar, tirando aqueles mais organizados, apenas um ou outro desgarrado apareceu nas manifestações. E não se pode culpá-los. Historicamente, sempre que os brancos brigam, acaba sobrando pra eles, nem que seja de forma indireta – tipo a polícia, que não pode bater em manifestante, vai à forra neles, sem medo de editorial. E como os vândalos quebram e saqueiam comércio e bancos, adivinha quem o garçom, a copeira e a balconista vão culpar quando o restaurante e a loja tiverem que fechar devido aos prejuízos?

Outro ponto é que, vamos admitir, nos últimos 10 anos, a vida dos caras melhorou. No momento, já não é tão boa, devido à inflação, mas ainda é melhor do que antes e, também por experiência própria, a galera sabe que, quando a inflação ameaça voltar, confusões apenas pioram o quadro. Assim, para tirar esse pessoal da posição de observador temeroso, é preciso explicar bem quais direitos estão em jogo, como se pretende fazer para conquistá-los, quanto tempo, mais ou menos, vai se levar para chegar lá, e, principalmente, quanto essa galera vai ganhar com isso. Assim mesmo – de maneira bem clara e pragmática.

Por fim, qualquer que seja a decisão a seguir, ela também tem que ser tomada rapidamente. Se demorar muito, o gás escapa e aí fica difícil encher o balão de novo.