100 mil ontem. 1 milhão amanhã. Ok. E aí?

“Foi bonita a festa, pá! Fiquei contente (…)”…

Agora é preciso refletir um pouco (é, meninos e meninas, é chato, mas necessário, que nem tomar aqueles remédios de há pouco anos).

1. Como escrevi no FB, a melhor frase da manifestação, aquela que, para mim, encerra todas as possibilidades, contradições, ambiguidades e limites do que aconteceu ontem, foi a do sujeito que estava a tocar fogo na Alerj, pichar o Paço e a Igreja de São José e quebrar caixas eletrônicos. Ao ser repreendido por uma mocinha pacífica, mandou na lata. “Você está louca, querida! Não se faz revolução sem violência”. Tio Karl – “a violência é a parteira da História” – deve ter vibrado em Highgate.

2. O sujeito é siderado? É, mas é um doido com um objetivo político – maluco, mas um objetivo, de qualquer maneira. Foi com base nesse objetivo, que ele e seu grupo organizou-se e encheu-se de ousadia e determinação para procurar um meio de atingi-lo. E, na sua frase afirmativa, o cara faz uma pergunta implícita à mocinha pacífica: “E você, querida, o que está fazendo aqui?”.

3. Essa é a pergunta. Ok, temos 100 mil nas ruas do Centro do Rio, mas e agora? Esse monte de pessoas vai pra onde? Vai se transformar em um milhão? E aí? Vai continuar caminhando e cantando, seguindo a canção para chegar…onde mesmo? A ideia é derrubar a Dilma? Ter transporte de graça para todo em todo o país? Conseguir a aprovação da união civil para os gays? Ter mais verba para Educação? Para a Saúde? Para a Segurança Pública? Para tudo isso? Qual o objetivo, afinal?

4. A falta de um objetivo estratégico – materializado em uma palavra de ordem que capture a imaginação da sociedade por sintetizar a razão pela qual vale a pena tomar porrada, se machucar e morrer, se for o caso – é um problema político sério. Ele é necessário para, depois, sabermos onde estamos e para onde vamos, em caso de vitória ou de derrota. Exemplo clássico: Diretas-Já. Depois da derrota no Congresso, nos reorganizamos e tratamos de eleger o Tancredo, mesmo tapando o nariz (alguns de nós, nos quais me incluo) para ele e para o Colégio Eleitoral. O objetivo político estratégico era a volta da democracia ao país. Qual o de agora?

5. Sem o objetivo estratégico, o metro pelo qual se medirá o sucesso ou fracasso de um movimento e pensa nos próximos passos, corre-se um risco tremendo – o da despolitização. Se o rapaz/moça vai pra rua e não vê a Dilma derrubada, o preço das passagens de ônibus não ser reduzido ou qualquer coisa de seu interesse vitorioso – ou mesmo derrotado , mas com perspectiva futura de vitória, o que tende a achar? “Ah, política não vale nada mesmo. Não adianta”. Isso é o que não pode acontecer de forma nenhuma. Seria jogar uma energia política extraordinária no limbo. Um crime de lesa-pátria.

6. Uma afirmação que está sendo alardeada sobre manifestações – elas não apresentam líderes. Bem, seria a primeira atividade humana organizada sem liderança desde quando caçávamos mamutes. Não existe isso. Há sempre líderes. São eles, por exemplo, que sobem nos carros de som e dizem para a multidão ficar calma, ir para a direita ou para esquerda durante a marcha, negocia com o outro lado…Chamar quem faz isso de “organizador” é desconversa – são líderes. De que tipo são – democráticos, autocráticos, teocráticos, anarquistas (é, tem. O que foram os grandes Errico Malatesta e Buenaventura Durruti, por exemplo?) – é outra conversa. É desses líderes que se espera o discernimento para que o movimento não se perca, esvazie ou seja tomado pelo pessoal do item 1.

Por fim, duas perguntas impertinentes, que têm e não têm a ver com tudo isso:

1. Algum global vai se solidarizar com os 20 PMs feridos e os funcionários da Alerj atacados pelo cara do item 1 e seus companheiros?

2. Marcelo Rezende, José Luiz Datena, Organizações Globo do mesmo lado que eu? Tem algo errado e eu não sou.

2 comentários sobre “100 mil ontem. 1 milhão amanhã. Ok. E aí?

  1. Eu, cada dia mais moderado, reparo na frase do velho barbudo alemão um aspecto importante: a parteira apressa um processo que já se encaminhava naturalmente para um desfecho. Logo, ela não tem o condão de substituir o processo lento e enfadonho da gestação. Quem quiser comparar com a negociação política, ao qual Anonymous e afins se mostram tão avessos, OK. No quesito violência e História, a melhor frase que conheço é a do comandante do Exército Vermelho, o renegado Trotsky, para quem revolucionários teriam de tratar cortes e sangue como cirurgiões, não como açougueiros.

    • Também ando meio moderado, mas tenho esperança de que os meninos e meninas me livrem dessa maldição da idade – ou, ao menos a retardem. Quem sabe não consigo chegar perto de meu ídolo, dr. Plínio de Arruda Sampaio?
      Creio que a análise do amigo da frase do Tio Karl é correta, mas há que se observar que a paciência não é exatamente um virtude muito encontrada entre os jovens.
      Já o renegado Trotsky era mesmo uma grande cabeça – e foi isso que o perdeu…

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