Goya, as passagens e o “agitmarkt”

Mais de 30 anos de jornalismo e mais de 50 anos de idade e você não quer que eu seja cínico? Ah, pelamordedeus, tenha santa paciência!…Apesar disso, tem coisas que são capazes, sim, de tocar esse coração de ouro (duro e frio). Duvida? Pois uma aconteceu semana passada, durante as manifestações contra o aumento as passagens no Rio e em Sampa. Veja as imagens abaixo:

 3 de maio de 1808_web

 14 de junho são paulo_web

A de cima está exposta no Museu do Prado, em Madri. É a tela “3 de maio de 1808: as execuções na colina Príncipe Pio“, um dos mais famosos quadros de Francisco José de Goya y Lucientes (leia o que ela retrata aqui). A de baixo (desculpe a má qualidade da reprodução) é uma foto tirada (sob diferentes ângulos) na quinta-feira, 13 de junho, em São Paulo, e publicada nos principais jornais do país no dia seguinte.

Como não tenho mais 6 anos e, creio, você também não, não devemos ter muitas dúvidas: a segunda imagem é uma reprodução da primeira. E foi isso que me emocionou – os garotos paulistanos usaram uma técnica de performance para reforçar o teor político da manifestação, usando para isso uma imagem de força reconhecida, mesmo por quem jamais tenha visto o quadro de Goya. Essa manobra foi mais do que brilhante. Foi magnífica. Genial.

“Mas como eles poderiam ter feito isso no meio do tumulto?”, perguntará você, denunciando que tem mais de 40 anos e, talvez, tenha passado os últimos 10 em algum exoplaneta, distante centenas de anos-luz do nosso sistema estelar, para não ter ouvido falar em flash mob. Pois uma variante deste tipo de mobilização que os jovens usaram para ganhar o coração da população, que, de outro modo, teria tudo para ficar pê da vida com eles por impedirem sua volta em paz para casa após um duro dia de trabalho.

Com minha cabeça centralista de 50 anos,teria montado o esquema assim (eles, com cabeça de 20, nativa de redes sociais, podem ter feito de maneira diferente e melhor)…Dois grupos – um que poderia ser chamado de “militar” e outro, de “marketing” -, coordenados por dois líderes. O primeiro ficaria encarregado de, após sinal do grupo de liderança (talvez por SMS), lá pelo fim da manifestação, começar a provocar os meganhas. Obviamente, truculentos que são, eles reagem e o pau canta. O grupo de marketing, que acompanhava o militar a uma certa distância, espera (essa deve ter sido a parte difícil) o momento em que fotógrafos e cinegrafistas aparecem para mostrar o quebra-pau e começa a performance. Na boa, que fotógrafo do mundo não clicaria a imagem lá de cima e que editor não a abriria em tantas colunas quanto tivesse à disposição? Era irresistível.

Pois é, tucanos e direita do PT. Vocês podem cozinhar esse galo político até que ele se desmanche em meio as suas contradições e violência, mas isso não vai impedir que se reconheça um fato: o garotos da equipe de “agitmarkt” – sucessora da gloriosa da “agitprop” leninista – do MPL deu um banho em vocês.

Desculpe, mas vou ali pingar um colírio. Os olhos estão começando a lacrimejar. A idade, você sabe…