Passaralhos diferentes

Como já era previsto há tempos, a Abril informou o seu passaralho, juntando-se a Estadão, Valor e Folha no massacre aos postos de trabalho do setor de comunicação. O movimento – que lembra o que ocorreu na segunda metade dos anos 90 do século passado – ainda não terminou e deve espalhar-se pelo Brasil, com maior ou menor intensidade em cada veículo, reproduzindo o que está a ocorrer nos últimos anos nos veículos dos EUA e da Europa.

Parte dessa destruição de empregos é consequência das mudanças culturais, que vêm se acumulando há duas décadas, causadas pela evolução da tecnologia da informação, e cuja velocidade acentuou-se nos últimos cinco, seis anos, especialmente após o advento das redes sociais. Os veículos de comunicação perderam seu monopólio de mediação entre os diversos atores sociais e, em sua maioria, não souberam se posicionar mercadologicamente de maneira adequada, vendo, assim, minguarem suas receitas de publicidade, cujas verbas estão se deslocando para as tais redes sociais e para os mecanismos de busca. Essa derivação é paulatina e atinge os veículos de maneira e em tempos diferentes – na TV, mais lentamente; nos veículos impressos, mais rápido -, mas de maneira que parece ser inexorável.

Os veículos têm procurado sobreviver ao tsunami da internet de várias maneiras. Uma das mais óbvias, até por tradicional, é derreter postos de trabalho. No Brasil, essa opção foi facilitada pela decisão do STF de acabar com o diploma obrigatório para o exercício da profissão de jornalista. Na prática, essa extinção tornou irrelevante o registro profissional, já que qualquer pode se dirigir ao Ministério do Trabalho e pedi-lo, sem que, para que seja concedido, seja exigida nenhuma prova de que se está qualificado para o exercício do jornalismo.

A decisão do Supremo facilitou a migração dos veículos para a internet ao livrá-los de uma amarra legal que poderia fazer com que, por exemplo, os sistemas de “eu-repórter” e a contratação de pessoas com qualificações duvidosas, fossem questionados na Justiça. No entanto, a mesma sentença do STF reduziu, no imaginário da sociedade brasileira – que, não esqueçamos, não possui grande experiência democrática e valoriza enormemente um diploma – a importância do próprio fazer jornalístico. Afinal, se qualquer um pode ser jornalista, legalmente e também na prática, o trabalho realizado por esse profissional não deve ser muito complicado ou fundamental, não é verdade?

Obviamente, contra essa corrente há a marca. Uma informação publicada, em qualquer canal, pela Folha ou por um revista da Abril tem maior credibilidade do que uma postada no FB ou no twitter. No entanto, como os veículos estão reduzindo seu pessoal e substituindo o que sobrou por gente menos qualificada ou mesmo pela reprodução dos posts das próprias redes sociais, com o passar do tempo, a credibilidade dessas marcas tenderá a se diluir, ainda mais que os veículos brasileiros decidiram unir jornalismo e militância político-partidária, o que, claramente, não ajuda a melhorar aquela deficiência na experiência democrática dos brasileiros apontada acima e, portanto, acaba também prejudicando os veículos no enfrentamento os desafios econômicos lançados pela tecnologia da informação.

A tendência, assim, é que o jornalismo não “comoditizado” venha a se restringir a veículos elitizados, como a “Piauí; a colunistas não domesticados, tipo de Jânio de Freitas; e a iniciativas individuais (como Luís Nassif) ou de grupos pequenos, todas opções frágeis, por diferentes motivos. Dessa forma, o futuro do jornalismo brasileiro – e, por conseguinte, dos jornalistas – não é dos mais risonhos.

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