Cascatas de aniversário

A Coleguinhas completou, ontem, 27 de maio, 17 aninhos. Então, em termos de internet, ela é do Devoniano, inclusive – principalmente, até – em termos de valores. Acredita e defende, por exemplo, que os jornalistas têm uma função social na formação da cidadania e que, portanto, devem tentar, com toda a determinação, participar do jogo político defendendo pontos de vista daqueles que têm dificuldade de participar dele e, portanto, diferentes dos jogadores institucionais (partidos e movimentos políticos, por exemplo) ou parainstitucionais. Obviamente, ao longo desse tempo, a defesa dessa opinião foi fragorosamente derrotada e pessoas que hoje a professam são praticamente inexistentes nas redações hoje. Fazer o quê?

Ainda assim, vou seguindo e, como presente de aniversário com um dia atrasado (ontem o dia foi complicado e não consegui postar), aí vão mais três cascatas que concorrerão ao King of the Kings-2013:

1.Petrobras é mal dirigida: Durante meses, a se acreditar nos coleguinhas, a maior empresa nacional estava em marcha batida para a falência. Eles, porém, esqueceram de combinar com os russos (e americanos, japoneses, chineses, franceses…), que, por estarem mal-informados, já que não leem os veículos brasileiros, acorreram em massa à captação da empresa realizada esse mês e casaram nela US$ 11 bilhões, um recorde entre companhias de países emergentes e inferior, nesse ano, apenas à operação de ninguém menos que a Apple.

2. Estádios elefantes brancos: Essa é uma cascata marcada a futuro. Dizem que os estádios da Copa serão elefantes brancos. Só esquecem de dois pontos:

a.Com exceção de Recife (Arena Pernambuco) e São Paulo (Itaquerão), nas outras cidades os estádios já existiam e foram apenas reformados (Rio, BH, Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Salvador e Fortaleza) ou os apresentavam antigos e deteriorados, tendo sido demolidos e substituídos por outros, modernos e multiuso – Manaus (saiu o Vivaldão, 43 mil espectadores, e entrou a Arena Amazônia, de 47 mil lugares), Cuiabá (Verdão, com capacidade para 50 mil pessoas, substituído pela Arena Pantanal, de 43 mil lugares) e Natal (Machadão, de 42 mil lugares, em lugar do qual se erguerá a Arena das Dunas, de 32 mil lugares – podendo ir 42 mil, por ter arquibancadas removíveis).

b.Como todos esses estádios seguem o conceito de arenas multiuso, não é preciso ser nenhum gênio do marketing para perceber que se abriu um circuito nacional para eventos de massa – tipo shows, festivais, reuniões religiosas, feiras, exposições… Exemplo: um artista internacional que vier ao Brasil não precisará ficar restrito ao eixo Rio-São Paulo, pois terá arenas com 40 mil lugares em todas as regiões do país, o que diminui o custo de sua vinda a essa terra distante. Sem contar, é claro, a prata da casa – quatro shows por ano de artistas como Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Leonardo e a dupla sertaneja ou o funkeiro da vez certamente dará um lucro que manterá o estádio por um ano, até por que, como são modernos, o custo de manutenção é mais baixo do que os antigos.

Delírio? Pois é assim que funcionam os grandes estádios europeus – ou alguém acha que aquelas arenas lindas e bem cuidadas se sustentam só com futebol?

3.Chore por nós, Argentina: Sempre tive orgulho de minha memória, mas agora estou meio ressabiado com ela. É que, por mais que tente, não consigo lembrar de uma cobertura tão intensa sobre o país hermano quando por lá reinava Carlos Menem, na época acusado dos mesmos crimes que hoje fazem a má-fama do Casal K. Naquela época, ao contrário, das poucas vezes que se ocupavam da Argentina, os veículos de comunicação brasileiros elogiavam a condução da política econômica comandada por Domingo Cavallo, a mesma que levou ao cataclisma social pelos qual os argentinos passaram e do qual ainda não se recuperaram.

Também causa espécie essa cobertura tão assídua por que, logo ao lado, no Chile, semana sim, outra também, a polícia vai à rua enfrentar estudantes, camponeses e operários, em confrontos com direito a gás lacrimogêneo, spray de pimenta, jatos d’água, coquetéis molotov e muita, muita pancadaria. Nada disso, porém, aparece nas páginas dos jornais e revistas brasileiros.

6 comentários sobre “Cascatas de aniversário

  1. Parabéns, Ivson, pelo aniversário da Coleguinhas.Como sempre, pontuando bem a realidade da imprensa brasileira. Evoé!

  2. Parabéns, Ivson e muitos mais anos para o coleguinhas! Quando a gente vê TV ou lê jornal fica com a sensação de que é burro ou desaprendeu, pois quase nada faz sentido. Vc vem e explicita todos os segredinhos e maracutaias. BJS

  3. Olha, não é tão simples assim. Uma das questões omitidas é a da privatização (Maracanã) desses estádios, ou a passagem das mãos do clube para empresas (A Arena do Grêmio não é do Grêmio, como dizem seus torcedores mais críticos).
    Depois, a elitização desses estádios, com ingressos muito caros, o que afasta deles a torcida mais pobre. Há um movimento em Porto Alegre contrário à nova formatação do Beira-Rio, que tem em vista um público endinheirado. O movimento chama-se Povo do Clube, em oposição à consigna histórica de Clube do Povo.É óbvio que a direção do Inter não conversa com os sócios adeptos dessa corrente, tendo inclusive convocado a Tropa de Choque da BM para impedi-los de se manifestar nas instâncias do clube.

    • Sidney, nesse caso, fico com o meu ex-companheiro de redação João Saldanha: ingresso barato é demagogia. Futebol é um esporte caro e os ingressos têm que ser também. João dizia, quando vinham com essa história de ingresso ter que ser barato por causa do povão: “Na Europa, ingresso custa 20 dólares, no Brasil, cinco. Que não custe 20, tudo bem, mas 10 tem que custar, se não paga nem a luz”.

Os comentários estão desativados.