Jornalismo paralelo

As matérias sobre o perigo que são os ônibus no Rio são indícios de que uma antiga tese minha pode ser verdadeira: há jornalistas no Rio que vivem numa realidade paralela. Só sendo assim para apenas agora eles notarem que os coletivos da Cidade Maravilhosa são um desastre ambulante, literalmente. Qualquer carioca que ande um mínimo de ônibus sabe disso – eu, por exemplo, uso esse tipo de transporte apenas 40 minutos por dia (20 para ir e 20 para voltar do trabalho), quando muito, e, só nesse curto período, vejo (e sofro) absurdos praticamente todos os dias.

A confirmação de que alguns coleguinhas vivem num mundo paralelo veio junto com a descoberta do que suspeito ser um dos pórticos transdimensionais pelos quais eles transitam do universo deles para o nosso – ele fica no Talho Capixaba, padaria moderninha localizada no Leblon. Fiz a descoberta lendo a nota de uma coluna na semana passada, na qual é apresentado como prova irrefutável de que a inflação está acelerando o fato de o quilo de pão naquele estabelecimento estar custando R$ 14,00.

Pois bem. Para comparar, na padaria aqui perto – moro no Centro – sete pãezinhos franceses custam R$ 2,00, preço que se mantém há cerca de um ano e meio. Como cada pãozinho pesa, em média, 30 gramas, segue-se que quem compra um quilo deles despende cerca de R$ 9,25 (cada pãozinho custa R$ 0,28), ou seja, 66% menos do que no Talho Capixaba. Só isso já derrubaria a ideia de que o pãozinho do Leblon é vilão da inflação, mas tem um ponto anterior – na boa, quem compra um quilo de pão por dia? Isso dá 33 pãezinhos de 30 gramas (se o pãozinho de sua padaria favorita pesa muito menos do que 30 gramas, bote a boca no mundo). Que família consome 33 pãezinhos diariamente? Só se for no universo paralelo onde vivem esses coleguinhas.

Viver nesse mundo virtual leva aos absurdos acima e também podem fazer parte da explicação do porquê os jornais estão perdendo mais e mais leitores a cada dia – e mesmo os que ainda os leem duvidam do que está neles escrito. Um problema que nenhum departamento de marketing, por mais carregado de talentos e dinheiro que seja, dá jeito.