Maracanã, memórias e chororôs

Na torrente de posts que inundou o FB após a reinauguração do Maracanã, saltou à vista a nostalgia de muitos – não pelo estádio, como se estava escrito, mas por si mesmos. Na boa, essa galera está é com saudades do tempo em que podia subir aqueles degraus imensos sem doer o joelho – e flertar com um ataque cardíaco – e aguentar o frio intenso, no inverso, e o sol na cara por horas, no verão, graças ao frescor da juventude.

Pior, porém, são as memórias, né, meu povo? Brasileiro é ruim de lembrar e o recomeço – por que é isso de que se trata – do Maraca forçará os nostálgicos a não só construir novas memórias (algo já complicado pela falta de tempo para o pessoal do primeiro parágrafo, a maior parte do qual já indo para o segundo tempo da vida), como manter as antigas, algo difícil para quem não tem prática.

Menos compreensão tenho com quem ficou se queixando de tudo – até dos artistas convidados para a reinauguração. Isso é um ponto lamentável de nossa maneira de ser: nos queixamos de tudo, tanto do que devemos, como do que não tem nada a ver. Pior é que não fazemos nada a respeito, a não ser se lamentar no facebook ou com o vizinho do lado, que também aproveitará para soltar sua própria ladainha em cima de nós.

Bem, aqui vão minhas colaborações para reclamões de plantão e saudosos do antigo Maraca no talento de dois grandes da nossa música.

Raul, para os choramingas; para os nostálgicos, uma aula de como lembrar, de Caetano,

4 comentários sobre “Maracanã, memórias e chororôs

  1. Encarnei acidamente com o decano Israel Tabak quanto à saudade de nós próprios, expressa na maior parte das comparações, do futebol à música, de bons tempos que jamais existiram como os concebemos na memória. Daí tender a concordar com o igualmente cinquentão Ivson.
    No entanto, sigo com minhas reservas quanto ao modelo Fifa acriticamente importado para a construção das arenas. ingresso numerado para futebol? Derrubar tudo em volta por conta de estacionamento, numa hora em que o colapso das cidades pelo excesso de veículos individuais se avizinha?
    Gastei minha garganta pouca nas Diretas Já, outros pagaram um preço bem mais caro, para repetir o gigantismo e o rodoviarismo dos milicos? Execrou-se e demonizou-se o FHC para adotar o grosso das receitas? Com o grande argumento de que agora come frango, o filho do pobre come iogurte e já tem celular pré-pago? Bom, um avanço e tanto para quem de nada dispunha, mas pouco para quem se pensou e se apresentou como condutor de uma mudança mais profunda.
    Na moral: o day after dos grandes eventos, como alerta o pessimista de plantão mais articulado do planeta, Wilson Tosta, pode ser uma baita ressaca, com aluguéis e bares mais caros. Os veteranos de 68 remanescentes no PT poderiam, como penitência, pichar os muros da cidade, em homenagem à repetição ligeiramente melhorada das fórmulas de milicos, tucanos e sarneyzistas que por vez em sempre acomete o governo de Dilmão: ‘A falta de imaginação no poder’. É a Paris que nos resta…

    • É, Cezar, os militares deram, como diria um falecido primo meu, de Pernambuco, sobre outro assunto, “um impulso da porra” para o rodoviarismo verde-amarelo, mas, a bem da verdade, não foram eles que engataram a primeira.

      A duvidosa honra é de Washington Luiz – “governar é abrir estradas”, dizia ele. E o fazia, segundo os fofoqueiros da história, por que, barão do café que era, vivia às turras com os ingleses donos das ferrovias paulistas, que lhe cobravam, na opinião dele, preços escorchantes para transportar suas sacas do “ouro verde”. Outro importante personagem dessa história veio do lado do leite – o mineiro JK foi quem trouxe a indústria automobilística para o Bananão.

      Essa conta, os milicos têm com quem dividir, amigo velho.

      • Antes dos tanques, os rodoviaristas seduziram os mineiros, os paulistas e assim por diante, o amigo tem razão. De certa forma, a origem do governo petista nas lutas do ABC, reduto de montadoras e de metalúrgicos, pode ter pesado, conscientemente ou não, para o resultado decepcionante em matéria de investimento no transporte de massa, em especial sobre trilhos. E Lula não escondia de ninguém a admiração pela política econômica do Geisel, de resto partilhada por esquerdistas como Ernest Mandel e cepalinos como Antonio Barros de Castro.

        • Tendo a acreditar que foi bem mais consciente do que inconsciente. E fã de carteirinha da política econômica geiselista não creio que haja maior do que a nossa PR. Um fato que faz crescer ainda mais (sim, é possível!) meu amor pela irônica Clio.

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