Combatendo Macunaíma

Numa fase macunaímica em relação ao blog, tive que vencer a preguiça para escrever as mal-digitadas abaixo. Confesso que o impulso decisivo veio dos comentários do Companheiro Gaspari em sua coluna de hoje, ao falar da polêmica sobre a ampliação dos direitos dos empregados domésticos e a respeito do pastor Marcos Feliciano. Assim, lá vão meus pitacos sobre:

1. Domésticas: Além do que disse o Companheiro em sua coluna de hoje, que subscrevo, acrescento que empregado doméstico é luxo em tudo o que é lugar em que a escravidão não faz parte do modo de produção, como nas sociedades da Antiguidade (na Idade Média tinha pouco, tendo sido substituída pela servidão de gleba), no Sul dos EUA até a Guerra Civil e aqui no Bananão.

Nos lugares em que o capitalismo implantou-se como modo de produção, o trabalho doméstico virou “consumo suntuário” e minguou. A razão disso é que o capitalismo necessita do chamado “exército industrial de reserva”, uma massa de trabalhadores que vive no ou à beira do desemprego e serve para segurar o valor do insumo trabalho, que é o verdadeiro gerador do excedente de riqueza da sociedade capitalista por meio da “mais-valia” (basicamente é isso, mas se você quiser se aprofundar recomendo ler O Capital). Resumindo: o trabalho doméstico é estéril, não gera riqueza, daí ser expelido pelo modo capitalista de produção, que é voltado somente para a geração de riqueza a ser apropriada pela burguesia.

Assim, o encarecimento do trabalho doméstico é algo inevitável sob o capitalismo. Aqui, esse processo não aconteceu de repente, como pode parecer a algum desavisado que observe a reação de surpresa das madamas. Há três décadas, no mínimo, os direitos dos empregados domésticos vêm sendo paulatinamente ampliados – numa espécie atualização do que aconteceu no processo de abolição da escravatura, que também foi feito ao poucos, por leis sucessivas. Um caminho que vários economistas – incluindo alguns maridos de madamas ou amigas delas – avisaram que estava sendo trilhado.

Aliás, por falar em economistas e madamas, a reação destas à conquista das empregadas me colocaram numa posição em que, juro, jamais pensei estar: do mesmo lado do Delfim Netto. O czar da economia da ditadura foi um dos tais economistas que, há muito tempo, avisava do que estava ocorrendo e não foi ouvido pelas madamas.

2. Feliciano: Como já tinha dito aqui, Marco Feliciano não é uma excrecência na política brasileira – ele representa uma parcela ponderável da sociedade do país. Na campanha por sua renúncia à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que avança, célere, para a derrota, me fixei em dois pontos:

a. Os inimigos do pastor, mesmo no caso cada vez mais improvável de vitória, garantiram-lhe uma montanha de votos nas próximas eleições e um potencial de liderança enorme no meio daquela parcela da sociedade brasileira que citei acima.
b. A lastimável atuação do PSOL no episódio. Um partido que participa de eleições, por definição, aceita que a via parlamentar é o caminho para assumir o poder ou, pelo menos, fazer com que suas ideias virem lei a serem seguidas pela sociedade.
Aceitar a via parlamentar é aceitar a vida no Parlamento e, em qualquer Parlamento desde que essa instituição foi criada, já lá se vão 800 anos, há acordos, que podem ser cumpridos ou traídos, mas são sempre negociados e selados. O PSOL sabe que é assim, mas pode até não participar dos tais acordos parlamentares, mas, se a escolha for essa, não pode atacar um acordo partidário, já que fez questão de não participar de sua negociação.
No caso da Comissão de Direitos Humanos, não se sabe de candidato lançado ou apoiado pelo PSOL (e, aliás, por nenhum outro partido de esquerda, incluindo o PT). Assim, o partido não tem autoridade política para contestar o resultado. Pode atacar a condução da comissão, mas manifestar-se pela retirada do parlamentar escolhido para presidi-la não.