Cinco minutos

Uma das primeiras lições sobre vida nas redações que recebi foi de Aristélio Andrade, coleguinha veterano, membro do Partidão, primeiro chefe de redação da Placar. “Se você quiser saber qual é o caráter de um jornalista, coloque-o atrás de uma mesa de chefia. Ele se revela em cinco minutos”, disse ele sobre um coleguinha que ultrapassou em muito o tempo do teste e se manteve íntegro.

O ensinamento – que, depois, constatei vale para qualquer profissão – me vem a cabeça toda vez que leio, no feicebuque, os posts de um coleguinha recentemente promovido ao cargo de editor importante no principal jornal dessa muy leal e heroica cidade. Nos textos, o rapaz se deleita em reproduzir e sacanear releases enviados para sua editoria, dando nome aos bois. Os textos são realmente toscos e, por isso, do meu ponto de vista, é uma crueldade expô-los dessa maneira. Como em todos os ramos, há bons e maus profissionais – no próprio jornal, na própria editoria chefiada pelo irônico coleguinha, há essa divisão. Se o poderoso editor quer mesmo melhorar a qualidade do produtor do release, deveria escrever-lhe de volta – de preferência com respeito – fazendo sua crítica e informando que textos daquela qualidade jamais serão considerados.

O comportamento do coleguinha, porém, não denota apenas uma fraqueza de caráter (ele nem é mau-caráter, é até gente-boa), mas apresenta também uma dimensão política – demonstra o grau de assimetria de poder que existe hoje, no Brasil, entre as redações e o resto da sociedade. Um jornalista pode escrever o que quiser, onde quiser, sobre quem quiser, seja verdade ou mentira, que jamais será sequer chamado à responsabilidade. No Brasil, apenas quem tem dinheiro (muito) e tempo sobrando pode ir à Justiça contra um jornalista, o que também demonstrará coragem, já que será acusado de tentar cercear a liberdade de imprensa, sem, claro, poder rebater, pois será reduzido ao silêncio.

Essa assimetria, que atenta contra a democracia, só poderá ser destruída por meio de leis que responsabilizem diretamente os profissionais e os meios de comunicação pelo que veicularem, seja pelo canal que for. Porém, como no caso das ações judiciais, o governo ou o parlamentar que levar essa cruzada adiante será anatematizado como antidemocrático e cerceador da liberdade de imprensa, embora seja justamente o contrário. Essa, porém, é uma questão que a sociedade brasileira terá de enfrentar, cedo ou tarde.

3 comentários sobre “Cinco minutos

  1. Enfrentar de frente?!?!? Ta, foi a emocao, mas corrige ai senao vou contar pra todo mundo!

    • Hehehe….Isso é que dá escrever depois de ver o time do Abel jogar….Valeu!

  2. Apoio total!

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