O papa “toupeira”

O início do conclave que vai escolher o sucessor de Bento XVI me fez lembrar da minha teoria da conspiração favorita, por ser de minha lavra: a de que João Paulo II foi o mais bem-sucedido “toupeira” da história.

“Toupeira” era como John Le Carré dizia que o MI6 chamava os agentes infiltrados por Moscou nos serviços secretos ocidentais durante a Guerra Fria. O mais perfeito deles foi Kim Philby, que chegou a ser um proeminente chefe do serviço de inteligência britânico e, ao ser descoberto, conseguiu se mandar para a URSS (o livro e o filme “O espião que sabia demais” foram inspirados em sua história).

Minha suspeita iconoclasta de que “João de Deus” era um agente infiltrado moscovita vem da estranha decisão dele de jogar a Teologia da Libertação ao mar, com os pés solidamente fincados em cimento teológico. Esquisita por que foi contra uma das principais características políticas da Igreja Católica, um dos pilares de sua longa história: a capacidade de estar nos dois lados de uma questão ao mesmo tempo.

Essa maneira de atuar começou com o próprio fundador. Instado a dizer se os judeus deviam ou não pagar os impostos a Roma, Ele mandou um “a César o que é de César, a Deus o que é Deus” e mudou de assunto. O sistema funcionou mesmo quando os cristãos foram perseguidos, pois se os seus seguidores eram predominantemente escravos, não é menos verdade que houve muita gente importante e influente em Roma e nas suas grandes províncias que professava a fé. Graças a esse pessoal, Constantino (cuja mãe, Helena, provavelmente, era cristã) permitiu que o Cristianismo se desenvolvesse , embora ele mesmo não acreditasse lá muito no culto.

O lance mais espetacular dessa capacidade ubíqua, na minha opinião, aconteceu com Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis. Como se sabe, ele surgiu falando que a Igreja deveria retornar à pobreza do Cristo e com uma mensagem radical de amor ao próximo (é, eu gosto dele). No entanto, jamais atacou os dogmas católicos (a natureza trinitária de Cristo, a comunhão dos santos, a ressurreição da carne etc) –, pois, se alguém fazia isso, o pau comia e a fogueira era acesa, como descobriram na própria pele, literalmente, os bogomilos e os cátaros (pesquisa no Google, vai…Para quem leu “O Nome da Rosa” (ou viu o filme) eram aqueles pobres que viraram churrasco). Como não entrou nessa dividida, Francisco e seus seguidores se ajeitaram no farto seio da Santa Madre e tocaram em frente.

Pois a minha estranheza com as atitudes de João Paulo II reside aí. A Teologia da Libertação, como Francisco, jamais atacou os dogmas da Igreja (ok, alguns escritos do Clodovis Boff, o irmão mais esperto do Leonardo e grande cabeça teológica da TL, poderiam levar por esse caminho, mas, ao que eu saiba, jamais escreveu ou falou nada nesse sentido) e, como os franciscanos, eram uma ponte entre a Igreja e o povo pobre localizado longe da Santa Sé, no caso na África e na América Latina. Não havia motivo para serem detonados como foram, deixando a Mater et Magistra nessa encrenca em que está metida, sem contar com apoios que poderiam oxigená-la e ajudá-la a superar as suas contradições nesse momento histórico. Um agente do KGB com a missão destruir o catolicismo – ou enfraquecê-lo até a irrelevância – não teria feito melhor.

A mídia diz que JP II ajudou a detonar a URSS. Pois é…Mas se você lembrar bem, Mikhail Serguéievich Gorbachev foi guindado à secretaria-geral do PCUS, em 85, sete anos depois que João de Deus ter sido alçado ao Trono de Pedro. Nesse período, ele se notabilizou mais por perambular pelo mundo, perseguir a TL e livrar a cara do arcebispo Paul Marcinkus no escândalo do Banco Ambrosiano (mais pesquisa no Google…) do que atacar a pátria-mãe do comunismo ateu, o que fez protocolarmente. Só depois que os povos do Leste Europeu já tinham, literalmente, botado o pé na estrada é que ele apareceu para bater no urso moribundo.

E aí? Não dava para o Dan Brown fazer um livro maneiro em cima desse meu delírio paranoico?

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5 comentários sobre “O papa “toupeira”

  1. Rapaz, vou pesquisar coisa nenhuma. Vou é te citar!!! 😀

  2. Ivson: essa foi a maior viagem de todos os tempos… O JPII de toupeira é sensacional! E o Ratzinger foi o que?

  3. Primeiro, Cristo não foi o fundador da igreja católica assim como Marx não foi o fundador do comunismo como muitos “intelectuais” teimam em dizer.
    Segundo, ao dizer a César o que é de César, Cristo esta dizendo justamente o oposto do que a ICAR faz ( vide banco do vaticano que mistura as coisas de Deus com as de César).
    Terceiro, Francisco de Assis, quando o Dogma que vc cita foi declarado ( concílio de latrão 1215 sob inocencio III) andava em pergrinação pelo oriente médio. Quando retornou a Europa quis sim restaurar princípios de sua ordem, entre eles o “que permitia o questionamento de preceitos e ordens percebidos como contrários à consciência”. Sofreu porém uma espécie de golpe, sendo praticamente afastado de sua ordem. ” Depois teve de aceitar, com a intervenção papal, várias mudanças importantes. Foi estabelecido o período probatório de um ano para novos candidatos, um representante do papa foi indicado governador e corregedor da Ordem, e Francisco passou a administração da comunidade para o Irmão Pietro Cattani, logo substituído pelo Irmão Elias, enquanto que Francisco permanecia apenas como guia espiritual ” ( qualquer semelhança com os defensores da Teologia da libertação não é mera coincidencia )
    Quarto, Vc pode pensar que sou entendido do assunto, mas na verdade sou apenas um chato que resolveu fazer o que vc falou e googlei. Ocorre que muitos pseudos intelectuais , sabendo que ninguem vai pesquisar porra nenhuma blefam mandando a tchurma pesquisar ( como disse sou um chato ).
    Quinto, porque Dan Brown blá blá… Bem, vc vai ter que fazer melhor que isso.

    • Valeu a pesquisa, Fernando! Não era papo não. Era pra pesquisar mesmo porque eu não tenho tempo. Sobre fazer melhor, aí pegou…Eu não consigo, mas também não me preocupo. Você, certamente, também resolver isso pra mim, não vai?
      Agora, que Cristo fundou a igreja não sou quem digo – foi ele mesmo: “Pedro, tu é pedra e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus, 16:18).

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