Hannah e o pastor

O Marco Feliciano, pastor e a agora presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, é um canalha. Creio que não há dúvida razoável quanto a isso. No entanto, se não há questionamento sério quanto à capacidade ética do nobre deputado, a meu ver, há quanto ao fato de o discurso dele ser representativo ou não na sociedade brasileira.

Veja…Feliciano é deputado federal eleito, ou seja foi pra rua, pediu voto e levou. E não foram poucos não – nada menos que 211.855 (12º mais votado entre 70 eleitos por São Paulo), sendo 47.685 na capital (ele tem força também na região central do estado: Araraquara, Araçatuba, Bragança Paulista, Piracicaba…). Para se ter uma ideia, Feliciano seria o terceiro mais votado do PSDB , só perdendo para Bruna Furlan (270.661) e Emanuel Fernandes (218.789), e quarto no PT, atrás apenas de João Paulo Cunha – é, o do mensalão -, com 255.497, Jilmar Tatto (250.467) e Carlos Zarattini (216.403). Assim, pelo menos no estado de São Paulo, o cara tem muito voto.

Surpresa? Só se você não anda pelo menos uma vez de táxi em São Paulo a cada seis meses e não tem o hábito de ouvir os motoristas, como eu. Se faz isso, certamente, durante o papo em meio a uma corrida de 20 minutos, teria uma boa chance de saber como pensa quem vota em Feliciano. Mas nem precisa ir à Paulicéia ou pagar uma corrida de táxi lá para ter contato com a matriz desse tipo de pensamento – não é necessário nem sair daí, da frente da tela do computador. É só dar uma passeada nos sites dos jornais e revistas e ler os comentários sobre matérias envolvendo direitos humanos (recomendo especialmente os sites do Globo e da Veja). No Facebook é menos provável de encontrar, pois, se você está escandalizado/a, seus amigos provavelmente também estão, já que, para serem seus amigos, quase certamente pensam parecido com você (há exceções, claro, mas logo você corta de sua lista, certo?).

“Mas o cara precisava ser presidente da CDH?”, perguntará você É, não precisava, mas esse não é o meu ponto. O problema, a meu ver, é que a cobertura que se vem fazendo do caso despolitiza a questão, centrando-se apenas nas ideias manipuladas pelo malandro, esquecendo que elas não surgiram do nada. Têm raízes sólidas e profundas na sociedade brasileira e isso precisa ser observado e dado à luz. É  preciso ter cuidado parecido –  guardadas as devidas proporções e com todos os pedidos de vênias necessários – com aquele a ser dispensado aos ovos de serpente que dão em coisas como nazismo e totalitarismos afins, segundo Hannah Arendt:

“(…) Além disso, não apenas a história do antissemitismo tem sido elaborada por não-judeus mentecaptos e por judeus apologéticos, sendo em geral evitada por historiadores de reputação: mutatis mutandis, com quase todos os elementos que se cristalizariam no fenômeno totalitário ocorreu o mesmo. Ambos os fenômenos — o antissemitismo e o totalitarismo — mal haviam sido notados pelos homens cultos, porque pertenciam à corrente subterrânea da história europeia, onde, longe da luz do público e da atenção dos homens esclarecidos, puderam adquirir virulência inteiramente inesperada.”

P.S.: Quem quiser baixar “Origens do totalitarismo” pode fazê-lo aqui. Recomendo muito a leitura.

2 comentários sobre “Hannah e o pastor

  1. Valeu pelo link!

    O problema todo é que tem gente que acha que a CDH era propriedade exclusiva da esquerda até o fim dos tempos. Como se o Congresso não fosse justamente o local do choque entre contrários. Como se não tivesse madeireiro na comissão de meio ambiente, patrão na comissão do trabalho. E onde tem conflito sempre tem a possibilidade de derrota.

    Daí, ficar tentando derrubar o Feliciano é ruim em primeiro lugar porque nega o jogo democrático: qualquer um pode ganhar, desde que seja quem eu queira. E em segundo lugar porque acaba fortalecendo a posição dele, que só esperava isso pra soltar a lorota de perseguição aos evangélicos.

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