Após o luto

A ideia era falar hoje, após cumprimento de luto de sete dias, sobre a tragédia de Santa Maria, do ponto de vista dos veículos de comunicação. Ia dizer que, como sempre, os coleguinhas foram rápidos no apontar de dedos para todos os órgãos públicos – no que fizeram bem, já que foram responsáveis mesmo -, mas fingirem que também falham ao não fazer o seu trabalho de mostrar o “lado B” da realidade.

Eis, porém, que fui furado pelo Companheiro Gaspari. Em sua coluna de hoje, ele propõe que nós, a patuleia, nos mobilizemos e, por meio das redes sociais, passemos a trocar informações a respeito das condições de segurança dos estabelecimentos de entretenimento. Uma ótima sugestão, que, provavelmente, tem como alvo os pais, pois jovens na casa dos 20 anos (e alguns retardatários trintões) se acham invulneráveis e, portanto, ligam para medidas de segurança de uma boate tanto quanto se importam em fazer visitas regulares a médicos.

O legal do conselho do Companheiro Gaspari é que, ainda que obliquamente, ele admite ter entrado no rol dos que desistiram de esperar que os coleguinhas façam algo parecido com um relevante jornalismo de serviços para a comunidade. Pois quem deve ter a iniciativa fazer o que ele sugere na coluna de hoje são os jornalistas que trabalham na editoria de Cidade dos grandes jornais.

Afinal, vamos convir, jornalistas estão entre os grandes frequentadores de bares, boates e casas de espetáculos de qualquer cidade. A “catchigoria” adora ser listada entre as formadas por intelectuais e, para manter a fama, frequenta esses locais. Ou alguém acredita que coleguinhas não são “habitués” das casas da Lapa? Muitas delas são verdadeiras armadilhas por contar com farto madeiramento em sua construção, terem sistemas elétricos antigos (e, assim mesmo, serem palco de shows ao vivo com aparelhagem elétrica) e manterem apenas uma porta de escape, algumas delas só acessíveis após o vivente descer uma íngreme escada, quase sempre de madeira. E não falemos de alguns teatros que são como caixas de sapato preenchidas por material combustível – não só os de propriedade do Estado ou do Município, como se pode concluir pelas matérias veiculadas. Há teatros privados na mesma situação que, por algum motivo que me escapa, não foram lembrados pelos coleguinhas.

Sobre a cobertura da tragédia? Olha, só passei os olhos, pois, assim que começava a ler uma matéria, constatava que já tinha visto textos como aquele desde a queima do edifício Andraus, que testemunhei , aos 12 anos, olhando de uma janela do apartamento de minha tia, em São Paulo. Mudam os nomes, os locais e até a função do edifício, mas a exploração da dor alheia e a inculpação dos poderes públicos são as mesmas (bem, na época do Andraus e do Joelma essa última parte não tinha, pois estávamos na ditadura e não se podia acusa autoridade, se não ia pra vala). Assim, por que ler? Não tenho a menor tendência ao sadismo.

PS.: Só para esclarecer: não sou contra que se contem as histórias dos que sofreram com as tragédias. Elas são reais e, por isso devem ser retratadas. Além disso, ajudam  a todos nós a sofrer com os nossos congêneres humanos e lidar com o luto coletivo. O problema, a meu ver, é a repetição ad nauseam das matérias, que banaliza a dor e causa um efeito de dessensibilização que, ao fim e ao cabo, acaba por permitir, lá na frente, a existência de novas tragédias, que passam a ser vistas, no Brasil, com se fossem leis da natureza, o que, definitivamente, não são.

 

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4 comentários sobre “Após o luto

  1. Ivson:
    A nota sobre o falecimento do Fritz Utzeri no Globo hoje, parece que foi “MAL-CORTADA-E-COLADA” de outro local (a fonte parece que é o JB.COM.BR). Veja o trecho no Globo: “De Paris voltou para o JB, mas foi logo convocado para ser o editor de Ciência e Tecnologia da TV Globo, onde mesmo depois de sair participou da edição especial do programa Globo Repórter sobre o Caso Riocentro. Com o companheiro ainda ajudou a desvendar o caso do desaparecimento e assassinato do deputado Rubens Paiva.”.
    O site do JB menciona o trabalho dele com o Heraldo Dias e depois (num texto bem parecido com o do Globo) fala sobre o seu trabalho como companheiro, o que fica “solto” no texto da Globo…
    PS: Antigamente tinha como mandar uma msg só para você – como fazer isso agora?

    • Ih, é…Nas mudanças, acabei detonando o endereço de email direto. Vou pôr de novo, mas, enquanto não acontece, anota aí: listas.ivson@gmail.com.

      Abs

      • OK… Mas fechando o tópico anterior, o GLOBO se tocou e corrigiu o texto (18h44) para: “De Paris voltou para o JB, mas foi logo convocado para ser o editor de Ciência e Tecnologia da TV Globo, onde mesmo depois de sair participou da edição especial do programa Globo Repórter sobre o Caso Riocentro. Com Heraldo Dias, com quem cobriu o caso Riocentro, ainda ajudou a desvendar o desaparecimento e assassinato do deputado Rubens Paiva.”. Se não foi copiado do JB, ambos beberam da mesma fonte…

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