Dilma cai dentro

Depois de peitar bancos e empresa de energia elétrica e chutar um monte de canelas por aí, Dilma resolveu brigar com o “manual da reeleição”. Essa obra jamais escrita, mas conhecida por todos os profissionais da política, diz que, ao governante, cabe adiar o mais possível o início da campanha de sua própria sucessão – seja ela quando está em último mandato ou, principalmente, quando for tentar a reeleição -, enquanto à oposição cabe fazer o contrário, mas também sem adiantar-se muito, a fim de que seu candidato não fique tanto tempo ao relento. Bem, a presidente fez o contrário: deu início à campanha de 2014 com o pronunciamento da última quarta-feira, quando anunciou que o desconto nas contas de energia começaria no dia seguinte e não em fevereiro. Ok. Mas por que ela fez isso? Tenho para mim que foi por causa do “Fantástico”.

O programa da Rede Globo começou, há coisa de duas semanas, uma campanha que, claramente, visa demonstrar que Dilma não é tão boa gerente quanto se apregoa. Começou logo pelo tema mais caro à presidente – o setor de energia – e seguiu para aquele sempre tão propício à demagogia que é a seca no Nordeste. O “Fantástico” é o porta-aviões, mas todos as outras belonaves do Império vêm atirando no mesmo alvo em todas as suas edições.

Assim, já que a as empresas de comunicação, o principal partido de oposição, como diz a Judith Brito, da Folha, partiram para o ataque, então por que esperar 2014 chegar? Dilma caiu dentro. Em verdade, ela já andava ensaiando esse passo. É muito provável que tenha sido ele o motivo da discordância com o Nove-Dedos, um cara que gosta de seguir os manuais políticos, no tête-à-tête, em Paris, e certamente a razão para ter botado o Eduardo Campos na parede, no mais recente encontro entre eles, em Brasília. O “Fantástico”, porém, deve tê-la feito decidir sair pro pau publicamente.

As resposta das OG não se fez esperar. Além dos costumeiros editoriais e colunas reclamando que ela está politizando a questão energética e mesmo de ter cometido o pecado de apelar para o nacionalismo, a Época dessa semana vem com uma apologia a Dudu Campos (tem até rasgados elogios aos seus magnéticos olhos verdes furta-cor), assinada pelo notório Luiz Maklouf Carvalho, enquanto a coluna “Panorama Político”, do Globo, praticamente lançou ontem a Marina Silva novamente à Presidência. Certamente vem mais por aí, não só por parte da artilharia das OG, mas também de outros impérios menores, mas importantes.

À oposição institucional, aquela que vai botar a cara na rua e bater na porta do eleitor à procura de votos, sobrou, nesse episódio como em outros, o humilhante papel de caçamba, encarregada de emitir notas lamurientas sobre o uso político da rede nacional de TV para falar de um feito do governo, como se um presidente pudesse falar de de outra coisa que não do seu trabalho.

Então, é isso. A campanha de 2014 está na rua e colocará, frente à frente, mais do que em qualquer outra nos últimos 30 anos, o projeto político que vem sendo seguido desde 2003, defendido por Dilma, contra aqueles que tentam pará-lo e, quem sabe, fazê-lo retroceder.