A real elétrica

Os coleguinhas já andam a requentar as matérias sobre o tal racionamento de energia, mesmo que, para esticar a novela, renovem seu ataque à matemática (como hoje na manchete do Globo). Assim, encerro, por ora, os posts sobre energia dando aqui a real sobre uma mistificação que é quase um meme impresso, dado o número de reciclagens a que os jornalistas já submeteram a bobagem.

Os coleguinhas vivem a dizer que se o Brasil tivesse investido na construção de usinas eólicas e fotovoltaicas em vez de hidrelétricas ou térmicas teríamos mais segurança energética sem poluir e sem desalojar riberinhos que vivem felizes da vida em suas palafitas.

Bom demais para ser verdade, não é? E é. Aos números.

Mas antes uma definição chata – o que é fator de capacidade (FC). É a grandeza obtida pela divisão da energia efetivamente gerada ao longo do ano – em geral, medida em MWh/ano – pela energia máxima que poderia ser gerada por uma usina se ela operasse a 100% de sua capacidade durante o ano. Tentando traduzir para o português de três maneiras mais ou menos diferentes:

1. É quanto uma usina pode gerar, efetivamente, em qualquer momento durante um ano.

2. É o quanto da capacidade instalada de uma usina, sua capacidade nominal, o sistema pode contar, efetivamente, a qualquer momento no decorrer de 365 dias;

3. É a quantidade de energia que uma usina é obrigada, por contrato, a gerar em qualquer momento do ano, ali, na batata.
Bom, agora vamos lá. Peguemos uma usina hidrelétrica, uma térmica, uma eólica e uma solar, que tenham potência nominal de 500 MW cada. O fator de capacidade de uma hidrelétrica no Brasil é, em média, de 50% (era de 55% quando podíamos construir grandes reservatórios, mas agora que não pode caiu uns 5% cinco pontos percentuais) – ou seja, dos 500 MW de potência instalada (aquele número que aparece no jornal), você pode contar com 250 MW quando precisar. O FC de capacidade de uma térmica gira em torno de 80% (numa nuclear vai a 90%), ou seja, ela tem uma garantia de 400 MW daqueles 500 MW

As usinas eólicas por aqui têm apresentado FC de uns 35% – afinal, não venta todos os dias do ano e nem da mesma maneira todas as horas do dia. As fotovoltaicas ainda não sabemos, pois só agora estamos começando as pesquisas a sério. Em países mais avançados na área – tipo Israel e Alemanha – o FC gira em torno de 18% (não, aqui não vai ser mais por que temos mais sol – o problema é que as placas de silício só conseguem transformar os raios do Astro-Rei em energia mais ou menos naquele percentual). Assim, a usina eólica de 500 MW de nosso exemplo só geraria 175 MW e a fotovoltaica, em torno de 90 MW.

Deu pra entender por que não se pode, simplesmente, trocar hidrelétricas e térmicas por eólicas e fotovoltaicas? Pois é. Quando os “verdes” dizem que o MW de uma térmica custa cinco vezes mais do que de uma eólica, eles não contam pra você que a eólica gera quase três vezes menos e que, como ela é intermitente (não venta etc etc etc), sempre precisa ter um backup, uma reserva, formada ou por uma hidrelétrica ou por uma térmica, para que o sistema tenha segurança.

Com a  fotovoltaica é a mesma coisa, com um agravante – como silício, o material com que se faz as placas, é oriundo de um processo que começa com mineração e termina com uso intensivo de energia para fabricar o silício refinado necessário ao trabalho, a energia solar acaba sendo, no total, tremendamente agressiva ao meio ambiente.

Segue-se que devemos abandonar a geração eólica e as pesquisas sobre a fotovoltaica? De jeito nenhum! A real, mesmo, é que o Brasil, com o seu tamanho e com a população que tem, não pode dispensar nenhuma – repito, nenhuma – forma de geração de energia elétrica. Temos que usar qualquer coisa que gere energia elétrica – água, vento, sol, urânio, óleo, bagaço de cana, bosta de vaca…Qualquer coisa pode (e deve) ser usada – dependendo de onde, como, quando e por quanto. Sacou?

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2 comentários sobre “A real elétrica

  1. Excelente explicação, como sempre, sobre o setor, que será, como sempre, ignorada por aí. Mas, só para ser chato, na parte em que fala de reservatório, a redução foi de cinco pontos (e não 5%), não? 😉

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