Operando nas trevas

Você quer saber como funciona a mídia brasileira, acompanhando um ótimo caso, que está a acontecer neste momento? Então fique de olho no desenvolvimento dessa sensacional cascata (vai entrar na lista do KofK-2013) que é o tal racionamento de energia.

Para começar, vou ser claro: não haverá racionamento como em 2001 em 2013. Hoje, temos um monte de usinas termelétricas e uma malha de mais 100 mil quilômetros de linhas de transmissão (e contando, como dizem os americanos), que não existiam naquele tempo, e milhares de megawatts à beira de entrar no sistema. Pode haver em 2014? Pode, se tivermos por dois anos seguidos um período de seca digno de gerar literatura de alto nível, tipo “Vidas Secas” e “O Quinze” – no momento, nem terminamos o primeiro- e nenhuma obra hoje em construção no Brasil sair do lugar em 2013. Possível, mas improvável.

Então por que, de repente, os coleguinhas começaram a falar como se fôssemos ter que desligar nossos condicionadores de ar e sofrer com um calor cão já na próxima semana? Veja aqui como se fabrica essa bizarra impressão:

1. Um/a coleguinha fala com um analista de mercado. Ele diz que a falta de chuvas, que deveriam estar caindo por agora, pode levar à queda na geração de energia elétrica;

2. O/A coleguinha, então, procura um especialista no setor elétrico e faz a pergunta: “a falta de chuvas pode levar à queda da geração de energia?”. O especialista, claro, diz que sim e, depois, informa que vai ser difícil isso acontecer pelo que expliquei mais acima. Aí, ele/ela pergunta: “Poderá haver racionamento?”. O especialista também diz que sim (afinal, tudo pode, não é mesmo?), mas acha difícil e repete tudo de novo. Mas aí já era – o lide está feito: “a falta de chuvas levará o país a passar por um racionamento”;

3. Sai a matéria. As ações das companhias elétrica vão ao chão;

4. O analista do item 1 indica aos seus clientes para comprar as ações das companhias elétricas (e compra ele mesmo um monte delas);

5. Depois de uns dias, começa a chover e o tal perigo de racionamento, como que por mágica, desaparece. O analista diz isso para o/a coleguinha, que escreve a informação;

6. As ações das companhias elétricas se recuperam;

7. Os clientes do tal analista (e o próprio) vendem as ações que compraram no item 3 e faturam uma grana preta.
O/A coleguinha? Em termos de grana, não leva um ceitil, mas como a pauta agradou à chefia, pois falou mal do governo e deu boas manchetes, fica prestigiado/a, candidatando-se a um aumento – quem sabe mesmo uma promoção – ou, pelo menos, afasta, por um tempo, o risco de demissão. Assim, quem perde mesmo com a operação são o leitor, que se estressou à toa , e o mané do acionista das empresas, sem experiência e/ou acesso aos analistas, que, acreditando no que escreveu o/a coleguinha, vendeu suas ações na baixa fabricada.

Anúncios