Os guarani-kaiowá e a democracia à brasileira

Esse burburinho em torno do tal “suicídio coletivo” dos índios guarani-kaoiwá é uma bela demonstração de como o de debates políticos reais da sociedade brasileira, que nunca foram muito claros, agora são quase totalmente obliterados pelas tais redes sociais – Facebook à frente, no momento.

O aspecto numérico do caso é um exemplo bem legal sobre como se despolitizou o debate. Na nota do Cimi (aqui), que detona o tal “suicídio coletivo”, diz-se que houve 555 suicídios de membros das duas etnias (há guaranis e kaiowás, unidas na  luta da terra) entre 2000 e 2011. Assim, corrijam-me se estiver errado, houve 46 suicídios por ano. Como, segundo dados do Bob Fernandes  não desmentidos (aqui), há 43 mil índios das etnias, segue-se que houve 0,0011 suicídios por grupo de 1000 pessoas, por ano. Perguntas: qual a taxa de suicídios no Brasil por 1000 pessoas/ano? Qual é essa taxa entre os não-índios?

As respostas a essas perguntas simplesmente não importam – seria legal tê-las, mas não importam. Não têm importância porque a questão não é numérica, é política. Um único suicida que fosse já deveria causar escândalo porque não se pode oprimir um grupo de pessoas num país democrático, ainda mais com o beneplácito do poder que deveria defender os cidadãos usando como arma a Constituição, no caso o Judiciário, mas especificamente o STF, lépido tanto em condenar políticos quanto em ajudar fazendeiros (aqui).

Esta é a questão política de fundo: que tipo de democracia estamos construindo no Brasil? Uma fundada na tolerância ao direito do outro, em que todos são iguais perante a lei e merecem respeito por suas opções, sejam elas políticas, religiosas, de orientação sexual e até clubísticas, ou uma fundada na vingança, na intolerância com a opinião alheia, no falso moralismo, na intimidação e no desrespeito aos outros cidadãos? A resposta a essa pergunta, sim, é importante. E o tempo para que ela seja respondida está avançando rápido.