O companheiro Gaspari e a perplexidade oposicionista

Nos quatro primeiros parágrafos do seu artigo de hoje – que li no Globo, mas deve ter sido reproduzido na Folha e outros jornais – o Companheiro Gaspari faz uma ótima análise do porquê a oposição do Brasil está como está – atolada e sem forças para sair do brejo: ela não tem projeto para o país. Entra eleição, sai eleição, a oposição só repete a cantilena, baseada em denúncias criminais e críticas aos projetos da situação, mas sem apresentar nem provas dos primeiros (de resto, sempre fadadas a ficarem na esfera pessoal e não política) e opções para os segundos.

Duas provas da perplexidade em que se encontra a oposição:

1. A proposta de Edmar Bacha de pôr o controle da inflação na Constituição. Ora, não foi essa mesma oposição, na época saindo do PMDB, que disse que a nossa Carta Magna era detalhista e abrangente demais, regulando em demasia a vida do cidadão e da economia? Pois é. E a proposta ainda foi veiculada por um prócer que há décadas forma com Pérsio Arida, Pedro Malan e Armínio Fraga as cabeças pensantes econômicas da oposição, sem que haja qualquer renovação;

2. Falta de renovação essa que e estende à política e fica patente no fato de que a nova esperança das oposicionistas é…um situacionista! No caso, Dudu Campos, do PSB, partido que, até segunda ordem, faz parte do governo.

Apesar do bom começo, o Companheiro Gaspari não mantém o nível no seu artigo. Logo depois de condenar as práticas políticas que levaram à oposição às seguidas derrotas eleitorais, o Companheiro faz o mesmo, apelando para o tal mensalão como arma para a crítica política, chegando a traçar o estranho – mas significativo – paralelo entre o julgamento de um assunto criminal pelo STF – uma questão judicial – e as retumbantes vitórias eleitorais da oposição à ditadura nos anos 1970, um episódio totalmente político.

O maior problema do artigo, porém, é conceitual. O Companheiro Gaspari divide o eleitorado em três fatias: uma tem horror a Lula; outra segue o Nove-Dedos, e uma terceira não tem nada contra ele, mas também nada a favor. É uma boa divisão, mas tem um problema: Gaspari dá a entender que elas são iguais. Mas não são. Até foram, mas hoje não.

A segunda, a que é fã do N-D, atinge, hoje, a algo entre 40% e 45% (há pesquisas indicando que esse percentual e ele explica o sucesso dos postes do Lula). Esse nível foi atingido fazendo o pessoal do muro pular para o lado do PT, convencido pelos fatos de que os governos petistas são, concretamente, melhores do que os da oposição de direita (nem tanto em relação aos parceiros de esquerda, que hoje são meio oposição, como PSB e PDT). Além disso, o pessoal cujo horror ao N-D era por medo à esquerda, já acha que o diabo não era tão vermelho como pintava (e pinta) a mídia conservadora e, mesmo desconfiando, subiu no muro, meio caminho para votar com esquerdistas. Assim, o pessoal que tem horror a Lula (e ao PT) deve variar, hoje, em torno de 20%. Daí as seguidas vitórias petistas e a pequena reverberação social das catilinárias antipetistas que proliferam nas mídias tradicionais e nas chamadas mídias sociais, que, apesar de todo o barulho que fazem, atingem apenas residualmente a imensa população do Brasil.

Assim, do jeito que está, a oposição vai continuar apanhando nas urnas – com uma ou outra vitória pontual – e, nisso, concordo totalmente com o Companheiro Gaspari.