O Globo lança a Operação Netos

Depois de uma rápida visita às raízes potiguares, do lado materno (Natal e Currais Novos), eis que retorno e encontro o poste Haddad com 17 pontos percentuais acima de José Serra e O Globo já partindo para outra – patrocinar a junção dos atuais grandes representantes das oligarquias nordestina e mineira, no caso Eduardo Campos e Aécio Neves, respectivamente – em sua ingente luta para apear o PT, e mais especificamente Lula, do poder (o fato de Lula não ter mais poder nenhum, a não ser aquele que a própria mídia lhe concede, é um detalhe que jamais impediria os Marinho de continuar sua cruzada).

Não se pode negar que juntar rebentos oligarcas do Nordeste e de Minas é um bom caminho, até por ser bem mais fácil do que unir as forças conservadoras mineira e paulista, pelo menos desde 1932. Ser mais fácil, porém, não quer dizer que seja fácil. Haverá bons problemas pela frente, que exigirão uma alta capacidade de renúncia política para que se atinja o objetivo estratégico, que é fazer regredir (na pior das hipóteses, estacionar) a evolução econômica, social e cultural da maior parte da população do Brasil.

Para começar, há as questões pessoais, de ego, que resvalam para as políticas. Eduardo Campos já avisou que não nasceu para vice – nem precisava dizer, pernambucano que é, mas foi bom avisar assim mesmo. Aecinho, com seu temperamento mais ameno, até possui jeitão para ser segundo, mas os mineiros jamais aceitariam isso, ainda para mais ficar atrás de um nordestino, tendo ele olho claro ou não. E essa recusa não será apenas dos tucanos mineiros e seus aliados, mas de toda Minas, que se vê como a matriz e o suprassumo da política nacional desde a Inconfidência.

Outro problema, na mesma linha, é a reação dos tucanos paulistas. Se ficar para trás em relação a um mineiro já seria duro de engolir para os fundadores e autodeclarados donos vitalícios do PSDB, ter de ceder a cabeça de chapa para um nordestino seria demais. “Além de ter que aturar aquele peão desgraçado do lado de lá, ainda teremos que aguentar outro baiano do nosso?!”, pensarão os tucanos de São Paulo (aliás, se chamarem o Eduardo de baiano, aí é que ferrou tudo de vez…).

Outro ponto importante e meio politicamente incorreto de se falar, mas que tem um peso e, por isso, não pode ser desconsiderado – o preconceito contra os nordestinos que existe no Centro-Sul do país. Ok, Lula é nordestino, mas, politicamente, é quase um quatrocentão (cinquencentão?) paulista. Eduardo não. É um governador nordestino mesmo. Isso pode ser um forte ponto contra, pois o último governador do Nordeste eleito presidente fez o que fez. Certo, um mundo separa as vidas políticas de Alagoas e de Pernambuco, mas desde quando o preconceito precisa de base na realidade?

E enfrentar tudo isso só para poder encarar uma mais do que árdua campanha em 2014. Afinal, Eduardo Campos é rei lá na minha terra, mas passou a fronteira estadual, seja em que direção for, sua imagem empalidece até quase sumir. No Rio Grande do Norte, por exemplo, ele é conhecido como governador de Pernambuco – o que não chega a ser exatamente uma recomendação, sob o ponto de vista potiguar – e nada além. Quando ele se lançar candidato, esse ponto tende a ser superado, claro, mas se, durante a campanha, for lançada a pecha de traidor de Lula, e ela colar, Eduardo poderá ter problemas até em Pernambuco.

Assim, diante de tantas dificuldades, vou acompanhar com atenção até que ponto os grandes jornais de São Paulo vão embarcar nessa empreitada que o Globo lançou hoje. Desconfio muito que eles adiram assim, de primeira. Se a Operação Netos mostrar-se viável, pode ser que Estadão e Folha até pressionem os tucanos de São Paulo para abrirem mão de uma vasta parcela de poder em nome do objetivo estratégico que mencionei no segundo parágrafo. A viabilidade, porém, deverá ser muito bem demonstrada, até pelo que aconteceu com a Operação Mensalão, que parecia bem mais fácil de ser levada a cabo, inclusive pelo apoio do Poder Judiciário, e está redundando num tremendo fracasso.

Bem, como costumava dizer o Mais Laureado Locutor Esportivo, o pranteado Orlando Batista, “quem viver verá!”.

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