Blecaute em série – Segunda parte

Agora que Charlie Eppes e Larry Fleinhardt explicaram como ocorre um blecaute (se ainda não viu, clique aqui), resta teorizar por que eles andam ocorrendo mais frequentemente no Brasil ultimamente.

Começando do começo, por uma questão de princípios.

Em meados dos anos 90, o governo da época decidiu que a questão da energia elétrica era um problema do mercado, sob o argumento de que assim era na Europa e nos Estados Unidos porque que o mercado – imune ao erro , como se sabe desde quando se rascunhava as Sagradas Escrituras – alocaria melhor os recursos. Dessa forma, todo o arcabouço de planejamento, sem falar na operação, construído por décadas, foi desmontado e, em parte, repassado à iniciativa privada. Não demorou muito para que o erro crasso desse enfoque se mostrasse em todo o seu esplendor e glória.

No período 2000/2001, uma conjunção que não acontecia há décadas (se é que já tinha acontecido antes) ocorreu: o país cresceu 4% no ano e houve uma estiagem braba na região central do país, conhecida como a “caixa d’água do Brasil” – pegue um mapa hidrográfico e você vai ver que há duas grandes regiões que concentram a maior parte das nascentes dos rios brasileiros, a que tem como centro o eixo Minas/Mato Grosso do Sul, e a Amazônia, mais especificamente o que fica entre o Sul do Pará/Norte de Mato Grosso-Tocantins.

Talvez você tenha esquecido, mas uma pesquisada mais ou menos rápida vai lembrá-lo/a: não havia déficit de geração de energia na época do racionamento. No Norte, a usina Tucuruí vertia água – o que, no nosso sistema 80% hídrico, que dizer que jogava energia fora – e, no Sul, Itaipu fazia o mesmo (lembro até o hoje do grande demagogo tucano Álvaro Dias, na época governador do Paraná, onde minha irmã morava, dizendo que o estado ia entrar no racionamento por solidariedade ao Brasil por que lá estava tudo bem. E era verdade).

O que não havia mesmo eram linhas de transmissão. Por quê? Porque o mercado ganha dinheiro com a comercialização de energia e não com a sua geração ou transmissão. Não dá para falar disso aqui, mas o Caso Enron (lembra?) baseou-se nesse fato. Havia energia no Brasil, mas não como levá-la até os consumidores, pois as linhas que o fariam não foram construídas.

Diante disso, o que fez o governo seguinte? Ah, garoto/a esperto/a! Isso! Investiu forte na construção de linhas de transmissão para afastar o perigo da repetição de um racionamento geral. Dizia-se, na época, que, juntas, as linhas formariam uma “usina virtual” que agregaria 25% de potência sem a adição física de nenhum megawatt.

Abre parênteses aqui.

Isso acontece mais ou menos como no caso do dinheiro, cuja circulação faz com que a riqueza aumente (mais detalhes sobre o tema no Livro 2 de “O Capital”) – um megawatt gerado no Pará, mas não usado lá, pode ser alocado no Espírito Santo; quando for necessário no estado do Norte, ele volta e os capixabas podem ser abastecidos por Itaipu ou por uma das usinas de Angra. Ou seja, ao circular, os megawatts parecem se multiplicar, embora nenhum a mais tenha sido gerado.

Fecha parênteses.

Nada mau aquela estratégia – afinal, fazer linha leva menos tempos(em média dois anos), enquanto fazer usina leva, pelo menos, três (no caso de térmicas) a cinco ( para hidrelétricas – isso, claro, índio, procurador e ambientalista não atrapalharem muito).

Só que essa ideia tinha um problema… Digamos que você tivesse 1 mil quilômetros em linhas de transmissão e 20 subestações (onde a alta tensão é rebaixada para poder trafegar nas linhas que ligam os postes). Aí construiu mais 500 km de linhas e mais 10 subestações. Teria que contratar uma galera para fazer a manutenção desses novos equipamentos, certo? É, mas não é tão fácil achar esse tipo de trabalhador. Fazer manutenção ou conserto de linha de alta tensão não é como trocar resistência de chuveiro elétrico. Não dá para sair desligando as chaves. O serviço tem que ser feito, na esmagadora maioria dos casos, com a alta voltagem passando pelas mãos dos caras – na chamada “linha viva”. Você deve estar imaginando que profissionais com esse nível de coragem e capacidade técnica não se encontra na esquina, certo? Pois é. Construiu-se a linha, mas o tal mercado não formara, nos anos anteriores, os peões que fariam a manutenção dela.

Ruim, né? Mas não o bastante. Como se diz nas HQs, “enquanto isso…”

Você deve lembrar como estava a economia brasileira aí pelo início de 2003, né? Na maior eme. E como está agora? Brigando pelo quinto lugar mundial com o Reino Unido, certo? Bem, podemos discutir, no estilo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha”, se a ascensão da tal nova classe média foi o motor ou a consequência desse “boom”, mas, do ponto de vista do sistema elétrico, isso não tem a menor importância. O resultado prático foi que cerca de 100 milhões de pessoas desandaram a trocar geladeira e televisão e a comprar novos máquina de lavar, ar condicionado, micro-onda, computador, DVD, o escambau – e a maior parte manteve aquela luzinha vermelha do modo “stand by” permanentemente acesa. E, claro, a indústria, tendo que produzir pra toda essa gente, precisou construir ou aumentar as plantas. E o comércio necessitou construir mais shoppings…

Já seria duro para aquele sistema ainda depauperado lá de cima aguentar. Mas teve mais. Quando o pessoal do parágrafo anterior ia se esbaldar nas casas bahia da vida, eles encontravam um outro, mais desconfiado e sem jeito diante dos vendedores, cujas compras não eram tão sofisticadas – em geral ficavam na geladeira e nas TVs: o pessoal do Luz Para Todos.

De 2004 até agora, cerca de 15 milhões de pessoas entraram no mercado de consumo de eletricidade e as pesquisas mostram: os primeiros bens que esse grupo compra é geladeira (para conservar a comida) e TV (para saber das coisas do mundo e se divertir, que ninguém é de ferro). Atenção: diferente do pessoal lá de cima, que aumentou o consumo, mas já estava no sistema, esse aqui é novo mesmo. Ou seja, há necessidade de se gerar mais energia mesmo, não fazer upgrades.

Aí você soma tudo isso com uma temperatura com média de 30 graus nas principais cidades do país, e dá o quê? Isso: blecaute.

Vai melhorar? Vai, mas levará um tempo. Quanto? Depende de alguns fatores: capacidade de investimento das empresas em meio à crise braba da economia internacional; força (ou falta de) da campanha anti-setor elétrico, comandada pelo MP e pelas ONGs ambientalistas, formação de técnicos capazes de fazer frente a um sistema em expansão…

Bem, eu não disse que ia ser fácil, disse?