E lá vamos nós…

Desculpe, pessoal, mas vou ter que voltar a falar um pouco sobre esse assunto árido e complicado, mas importante pelas implicações que tem com o nosso mundo midiático. Portanto, vou entender se você, que acha o tema telecomunicações tão chato quanto discussão entre juízes do Supremo, parar de ler aqui.

O retorno ao tema é causado pela adoção da tecnologia 4G no Brasil. Ontem, comprei um Ipad 3 (e agora, estou tentando achar o que fazer com ele, mas isso é outra história), que tem possibilidade acessar a internet em 4G. Adquiri o brinquedinho, porém, com a perfeita consciência que ele não vai usar essa funcionalidade no Brasil.

Esse fato ocorre porque, aqui, a 4G ocupará a faixa de 2,5 Gigahertz do espectro de radiofrequência (eu avisei que ia ser chato), mas nos países em que a tecnologia apresenta escala para ser levada a sério – basicamente, EUA, Canadá, Japão e Coréia do Sul, pois na Europa existe, mas abrangência é relativamente pequena – ela é oferecida na faixa de 700 MHz (em alguns locais, em 2,1 GHz). Aqui, a frequência de 700 MHz é ocupada pelas TVs abertas, de tecnologia analógica.

Pelos planos atuais, as TVs deixariam livre frequência de 700 MHz em 2016, quando, em teoria, todo o sistema brasileiro de televisão será digital. Só que o governo, pensando na Copa de 2014, quer antecipar o começo da saída progressiva das TVs da faixa para 2013. Obviamente, o lobby da Abert (no Globo, onde mais?) já entrou em campo, jogando aquele agá de que o desligamento antecipado prejudicará a população que se delicia com a briga de gata-e-rata entre Carminha e Nina “de grátis” (a publicidade, que sustenta a TV, pagamos embutida nos produtos que consumimos, mas deixa pra lá). Obviamente, a Abert entreabriu a porta da negociação – desligar só nos grandes centros, deixando a digitalização no interiorzão para as calendas -, e, também obviamente, ainda vai abranger um dinheirinho do BNDES.

Um último ponto (de hoje, não posso prometer mais do que isso) é o porquê do governo escolher a faixa de 2,5 GHz para a 4G. Bom, além da pressa para atender a demanda gerada pelos grandes eventos internacionais programados para cá nos próximos anos, há, creio, a ideia de seguir a bem-sucedida estratégia da TV Digital.

Quem teve a pachorra de acompanhar essa novela de anos, deve lembrar-se que um monte de gente caiu de pau porque o Brasil decidiu adotar o padrão ISDB-T, baseado em tecnologia japonesa, mas adaptado às nossas necessidades (o T é de tropical). Dizia-se que era besteira já que os padrões americano e europeu eram mais baratos e coisa e tal. Só que nenhum dos dois abria a tecnologia dos padrões ATSC (EUA) e DVB (Europa), com o que concordavam os japas. Hoje, o ISDB-T é, na prática, o padrão de TVD na América Latina e em alguns lugares da África. A ideia do governo parece ser a mesma e pode dar o mesmo resultado – a Qualcomm e a Nokia já avisaram que vão construir fábricas para componentes para a 4G em 2,5 GHhz, e elas só fariam isso se pensassem em termos de mercado latino-americano.