O futuro do jornal impresso: entre a decepção e a vergonha alheia

Ao terminar a matéria sobre o debate que reuniu os executivos responsáveis pelas redações dos quatro mais importantes jornais do país, publicado pelo Globo na edição de quarta (25) estava dividido por dois sentimentos. De um lado, a decepção; do outro, a vergonha alheia. Realmente não esperava que pessoas tão importantes da imprensa brasileira, com a responsabilidade de apontar caminhos para o jornalismo do país apresentassem reflexões tão sem brilho.

A principal conclusão a que chegaram, e que foi destacada pelo jornal na primeira página, foi que o futuro do jornal impresso é apresentar análises sobre a notícia. Essa foi razão do primeiro sentimento, a decepção.

Estou na Rede, com a Coleguinhas, desde 1996, como você pode ler no cabeçalho – a página entrou em rede no dia 27 de maio daquele ano, oito meses após a internet comercial dar seus primeiros passos no Brasil. Naquele tempo, havia pouco jornalismo na Rede, seja em termos de veículos, seja em termos de jornalistas. Era o tempo de pioneiros como Fernando Villela, o grande Fervil, tão tragicamente morto em 2004, e que me ensinou tanto; do bem-humorado Sérgio Charlab; da doce Cristina de Luca; e, claro, de Tia Cora Rónai, que, graças a Deus, continua, entre uma foto e um gato, nas lides internáuticas.

Bem, esse povo todo aí do parágrafo anterior – e outros mais -, já naquela época, levantava, entre outras teses, essa de que a análise era o futuro do jornalismo impresso. Pois, década e meia depois, não há nem sinal de que esse futuro tenha chegado ou possa vir a chegar. Na verdade, o que aconteceu foi exatamente o contrário – a análise, que ainda existia naquela época, praticamente sumiu dos jornais (hoje limita-se, quando muito, a algumas colunas assinadas por jornalistas, que são quase editorialistas de tão próximos das posições oficiais dos jornais que estão).

Minha explicação para o fenômeno: a internet mudou o tempo socialmente necessário para a produção e o consumo da informação. Hoje, ninguém espera um fato sequer acabar de acontecer para disseminá-lo, quanto mais aguardar para que seja analisado no dia seguinte. Análise? Ok, mas tem que ser na velocidade do fato analisado. É um fetiche da velocidade jornalística, como define Sylvia Moretzsohn em sua dissertação de mestrado “Jornalismo em ‘tempo real’: o fetiche da velocidade”. Ruim? É … Talvez…Não sei… Só sei que é assim, como poderia dizer o malandro Chicó, do “Auto da Compadecida”.

Nada disso parece sequer ter passado pela cabeça dos quatro debatedores e esse foi o motivo da decepção. Que não foi tão desagradável de sentir quanto a vergonha alheia provocada pelos argumentos usados para defender a tese de que o jornal impresso tem esse futuro aí de cima.

O meio talvez tenha um porvir – pelo exposto acima, acho difícil, mas esse ponto pode e deve ser discutido. Certamente, porém, ele não acontecerá por que “ainda não inventaram um meio que ofereça o prazer tátil que o jornal proporciona”, como afirmou um debatedor, por que “a tecnologia não pode nos fazer esquecer que, do lado de lá, tem um ser humano” ou porque “o meio é digital, mas a vida é analógica”. Se é com base nesse tipo de visão, em argumentos tão pueris – me desculpem os debatedores -, que se vai tentar construir o futuro do jornal impresso, então, meu povo, podemos todos comprar um terno ou um vestido bem bonito para irmos ao enterro desse velho companheiro, pois nenhuma reforma gráfica, por mais bem feita que seja, vai salvá-lo desse fim.