Valeu, nerd!

Após a grande vitória no STF, presto humilde homenagem a personagens esquecidos da luta contra o racismo no Brasil: os “nerds” do Vale do Silício e seus congêneres espalhados pelo resto do mundo.

Estranhou? Então me acompanhe.

Talvez você tenha lido lá no meu currículo que fiz o técnico em Estatística na Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. A Ence era uma escola à moda antiga – durona. Tanto que, em 1979, me preparava para o vestibular, mas o que me aterrorizava mesmo era ser reprovado lá – no vestibular, tinha certeza de passar; na Ence, não.

Para você ter uma ideia de como era a coisa, nesse ano, o Alcides, professor de Estatística, resolveu dar uma trabalho valendo metade da nota da prova final, antes de sairmos para as férias de julho. O motivo do tempo dilatado era que o tal trabalho versava sobre regressão estatística. E o que é isso? Bem grosseiramente é você fixar uma variável (que se torna, obviamente, uma constante) e ir mudando outras variáveis em volta. Exemplo: manter como constante a cor de uma pessoa (digamos, negra) e ir mudando outras variáveis – digamos renda familiar, região de moradia, sexo e faixa etária.

Esse método tinha um problema seriíssimo – os cálculos davam um trabalho do cão. Fácil de entender. Digamos que, no exemplo acima, as faixas de renda fossem cinco; as regiões de moradia, três; sexo, claro, dois; e a faixa etária, quatro. O desgraçado do pesquisador teria que fazer cálculos para 120 combinações diferentes! Já imaginou o tempo que isso consumia, correto? Para minimizar essa pedreira, o Alcides dividiu a turma em grupos de quatro ou cinco. Ainda assim não funcionou – depois de perder 15, 20 minutos de cada aula ouvindo nossas dúvidas e corrigindo nossos cálculos e abordagens, em outubro ele desistiu do trabalho e fizemos só uma prova comum. Graças a Deus.

O inestimável auxílio dos “nerds” é que, ao criarem os computadores, desenvolveram suas capacidades e softwares que as aproveitassem, eles permitiram que os pesquisadores fizessem cálculos com muito mais variáveis em muito menos tempo e, assim, flagrassem, com grande nitidez, fenômenos que antes poderiam ser ocultados ou, pelo menos, desconversados. Foi o que ocorreu com o racismo no Brasil. Os racistas sempre defenderam que não ele havia no Bananão e era difícil provar que eles estavam errados – afinal, temos carnaval, casamentos interraciais, não temos Ku Klux Klan, apartheid oficial ou campo de concentração com câmaras de gás. Uma beleza de democracia racial. A estatística, movida a computadores, acabou com a balela – as contas deixaram claro que os negros sempre estavam por baixo da pirâmide social, quaisquer que fossem as variáveis consideradas – e até quaisquer que fossem as pirâmides sociais inventadas. Isso abriu o caminho para a política de cotas, a sua contestação pelo DEM (quem mais seria, né?) e a goleada histórica no STF.

Valeu, nerd!

2 comentários sobre “Valeu, nerd!

  1. Muito bom o post Ivson!

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