Bebês chorões

A reclamação dos coleguinhas de que do Ministério do Trabalho, por colocar no site as perguntas feitas por eles, com as respectivas respostas, os está constrangendo não só não tem um argumento sólido que a sustente como ainda pode voltar-se contra eles.

É consenso que, no momento em que uma fonte passa uma informação para um jornalista, ela passa a ser deste, que pode dispor dela livremente. Ora, para que haja um equilíbrio na relação ,a pergunta feita pelo jornalista também passa a pertencer à fonte, pois ela é, afinal, também uma informação (no caso, a de que o jornalista está fazendo uma matéria sobre um determinado assunto). Assim, da mesma forma que a informação passada ao jornalista pela fonte ao jornalista, esta pode dispor das perguntas livremente.

Os jornalistas dizem que estão sendo constrangidos. Por quê? O MT não está censurando ninguém. Apenas está usando do seu direito de divulgar uma informação (as perguntas), que lhe foi passada livremente, e  outra (as respostas), que ele também livremente entregou para os jornalistas.  O que há de errado nisso?

Esse processo deixa a apuração dos jornalistas aberta para a concorrência? E daí? Esse problema não é do MT, certo? Os jornalistas, por acaso, se preocupam com o constrangimento que, por exemplo, os filhos e netos do ministro Lupi estão passando? Se as crianças podem estar sofrendo bullying por seu avô estar sendo chamado de corrupto (e, aliás, até agora sem nenhuma prova)? Não, certo? Os jornalistas devem se preocupar com isso? Também não. Não é problema deles o sofrimento que suas informações, falsas ou não, podem provocar, positivo? Então, na boa, por que as fontes – no caso, o ministro Lupi – teria que se preocupar se um coleguinha vai ou não dar uma informação exclusiva (ou que ele julga assim)?

O pior dessa reclamação de constrangimento é que ela abre a chance de suspeitas contra os jornalistas. Afinal, pode começar a perguntar-se o leigo se a queixa não esconde o incômodo causado aos coleguinhas pela retirada da oportunidade de eles manipularem as respostas tirando-as de contexto. Uma suposição absurda, claro – jamais pensaríamos, nós que trabalhamos no meio, que jornalistas, por exemplo, da Abril, das Organizações Globo, do Grupo Folha ou do Grupo Estado, manipulariam informações, dada a inatacável fortaleza moral de todos os profissionais que militam nessas e em outras organizações jornalísticas. Mas os leigos, vocês sabem,  podem ter essa desconfiança por não contarem com formação na área e não poderem desfrutar do privilégio de conviver, diariamente, com pessoas tão impolutas.

Enfim, esses reclamos dos coleguinhas contra o Ministério do Trabalho, da mesma forma do que ocorreu contra a Petrobras há dois anos, não passam mesmo é de chororô e birra de quem, no fundo, não entende o que é democracia.

4 comentários sobre “Bebês chorões

  1. O principio constitucioinal da liberdade – e seu contraponto a censura- virou uma palavra mágica para todos os males. Deixa ver se entendi: os jornalista podem manipular, falar, condenar, denegrir e constranger quem quer que seja pela dita ” liberdade de imprensa”. Os cidadãos não podem saber como eles trabalham? é segredo?

    • É isso mesmo, irmãzinha. Nem os cidadãos e muitos menos as instituições do Estado.

  2. Concordo com você, Ivson. Além de tudo que citou, acho que tem a ver também com a idéia de que a “exclusiva” é um direito do jornalista e até um dever do entrevistado. E, não, não é. Aliás, em se tratando de ocupantes de cargo ou função PÚBLICA, a regra deveria ser a inversa: nada exclusivo, toda informação com a maior publicidade possível.

    • Pois é, Chia. Na verdade, a “exclusividade” vira uma moeda de troca entre a fonte e o coleguinha e sabe como é esse negócio de moeda de troca…Pode não ter nenhum problema (a na maior parte das vezes, não há), mas…

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