Movimento anticorrupção – obstáculos (I)

Só para não deixar dúvidas, caso elas ainda existam, vou ser bem claro: sou a favor do movimento anticorrupção. Tão a favor que vou escrever alguns posts sobre os obstáculos que ele enfrentará para empolgar as ruas como aconteceu com a Diretas-Já, o modelo perseguido pelos organizadores do movimento –  pelo menos os que assim se denominam ou são apontados como pelos veículos de comunicação que apoiam o movimento.

O primeiro problema é o sectarismo. É bem complicado organizar um movimento de massa e, logo de cara, excluir segmentos. No caso, os movimentos sindicais e os políticos. No Rio, por exemplo, esse sectarismo impediria a participação, de cara, do movimentos dos professores – que é sindical – e o dos bombeiros, que também é sindical, mas com fortes ligações político-partidárias. Deixaria de lado ainda nomes como Marcelo Freixo, Chico Alencar, Milton Temer, Eliomar Coelho e Fernando Gabeira. Todos são políticos profissionais e político não pode participar, certo? Em nível nacional, esse veto alija Cristóvam Buarque e Marina Silva, entre outros. Se esses puderem participar, um dos pilares ideológicos do movimento sofrerá fratura, que tenderia a alargar-se com a dinâmica do processo.

Pode ser que exista, mas eu não conheço qualquer movimento de massa vitorioso que não tivesse contado com suporte político organizado por trás. Primavera Árabe? Desculpe, mas não haveria primavera no Egito sem a Irmandade Muçulmana, na Líbia sem o CNT, na Tunísia sem o Hezb Ennahda  e na Argélia sem a Frente Islâmica de Salvação, todas organizações políticas estruturadas há um bom tempo.

As redes sociais foram fundamentais por permitir maior velocidade à circulação da informação, algo essencial para organizar protestos de massa, mas quem proporcionou a logística para eles foram mesmo os partidos ou outros tipos de movimentos políticos estruturados, que também forneceram outra coisa muito importante: as doutrina a ser seguida. Esse é o cimento que une os grupos dispersos e indica os dois outros pontos essenciais para o sucesso de um movimento desse tipo, dos quais falo nos próximos posts.

7 comentários sobre “Movimento anticorrupção – obstáculos (I)

  1. Pode haver outro problema: o movimento foi deflagrado em função das trocas nos ministérios de Dilma. Este fato, percebido ou divulgado pela oposição como aumento da corrupção, pode estar sendo percebido por muitos como aumento do *combate à corrupção*…

  2. Nem partidos políticos nem sindicatos foram “excluídos” como você diz. Qualquer pessoa, inclusive militantes e sindicalistas/lizados, podia participar, só não podia levar faixa com divulgação de partido e sindicato. O que você vê como falha da marcha eu vejo como revelação de um defeito gravíssimo dessas entidades: são grupos que não se manifestam para defender causas, mas para promover SUAS causas. A UNE, os sindicatos, os próprios partidos (pelo menos aqueles que se promovem como contrários à corrupção) poderiam ter mobilizado sua militância para comparecer à marcha “à paisadana”. Mas para que participar de um movimento sem divulgar a “marca”?

    • Não foi isso que saiu no Globo e no Estadão na boca daqueles apontados como organizadores. Textualmente foi dito que não seriam permitidas as participações de entidades sindicais e de politicos. Obviamente, os sindicalistas, como cidadãos que são, certamente poderão participar – não teria nem como impedi-los. No entanto, eles, como cidadãos, não poderão movimentar os recursos dos sindicatos, espcialmente na área de logística. Assim, o veto ainda assim prejudica o movimento. Talvez você, como uma pessoa lúcida, possa participar da organização e trabalhar para esse veto estúpido.
      Quanto a mobilização pelas causas próprias, esses grupos de pressão existem para isso. É o seu papel na democracia. Precisam sim ser mobilizados para causas mais gerais e não alijados desde o início.

  3. Olá! Sigo ha tempos seu blog, mais precisamente assino os feeds. E, em relação ao q você chama de “primavera árabe” (termo cunhado pela imprensa e não pelos movimentos), acho q comete alguns equívocos. A “Irmandade Muçulmana” não esta por trás do q aconteceu no Egito, ela é uma organização q se estende por inúmeros países árabes e q tem por premissa reverter a “ocidentalizacao” dos países que, por exemplo, desvincularam a sharia dos seus códigos penais. E no caso da Libia, o CNT não pode ser considerado uma organização política porque esse termo também foi criado pela OTAN muito tempo depois dos conflitos iniciarem em fevereiro. A criação do “CNT” pretendia dar legitimidade à ocupação estrangeira do país (em curso) disfarçada de “novo governo” ou “governo de transição”. Até q os conflitos se estendessem além de Benghazi não havia CNT, ele passou a existir como ferramenta de convencimento p/os espectadores do mundo inteiro que, sem entender o que se passava (e ainda passa) na Libia foram levados a acreditar na história de um levante popular. O caso da Libia, principalmente, nada tem a ver c/os outros países. Mas é compreensível q muitos tenham sido levados a acreditarem nisso.

    • Ok, Juliana. Mas seus argumentos não invalidam o meu: o de que estruturas políticas são essenciais para a existência, manutenção e expansão de movimentos de massa.
      Quanto à mídia dar nomes a movimentos de massa, que esses mesmos não se deram, faz parte do jogo e da dinâmica da coisa.

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