Duras constatações

Vamos encarar os fatos. Trinta mil pessoas  nas ruas protestar contra a corrupção – 25 mil delas em Brasília – é uma derrota.  Teve menos gente mobilizada pelo tema no Brasil todo  do que no Engenhão para Botafogo x Ceará (36 mil) e menos da metade do número de pessoas que viu o jogo 1000 mil do Rogério Ceni, no Morumbi (65 mil). Menos gente até que no próprio desfile oficial da Independência (40 mil) – evento notoriamente desprestigiado há quase 30 anos.

Desse fracasso, ficam duas constatações:

1.Rede social no Brasil é coisa de elite da elite que tem acesso à internet;

2.Corrupção parece ser assunto tão banalizado que não consegue mobilizar gente nem para passeata.

9 comentários sobre “Duras constatações

  1. Discordo. Trinta mil pessoas saírem de suas casas para protestar, quando NUNCA saíram nem duas mil, é, no mínimo, um fato de interesse jornalístico. Não se pode afirmar que não “significa nada” sem ao menos reconhecer que é um fato inusitado – e o inusitado, no sentido de fora da normalidade, é a matéria-prima básica do jornalismo.

    • Pode até ser significativo para Brasília, mas cinco mil nas outras capitais, é fracasso. No Rio, você viveu aqui e sabe, qualquer marcha, a favor ou contra qualquer coisa, reúne pelo menos cinco mil sujeitos na praia, num dia de sol.
      E não é verdade que as pessoas NUNCA saíram de casa. Afinal, o que aconteceu no impeachment e nas Diretas-Já? Além disso, saíram 40 mil para ver os Dragões da Independência desfilarem.
      Na boa, acho que em vez de ficar querendo tapar o sol com a peneira, mas útil seria encarar a derrota para saber o que aconteceu e melhorar. Um bom caminho, talvez, seja evitar o sectarismo-mob, que fez com que, segundo O Globo, os movimentos sindicais não fossem bem-vindos à manifestação, e que pôde ser lido na declaração de um cara dizendo que o movimento não tinha liderança e que deveria continuar assim. Bonito, romântico e bobo. Todo movimento tem liderança, se não tiver, nem começa.

    • Ah! Desde o início O Globo apoiou o movimento, ao contrário do que fez com as Diretas-Já. O que mudou? Não tenho certeza. Só sei que não foram as Organizações Globo.

    • Brasília fagocitou pessoas que foram mobilizadas para ver os desfiles.

  2. “1.Rede social no Brasil é coisa de elite da elite que tem acesso à internet;”
    Nem tanto. Internet atinge maciçamente até a classe C. É que…

    “2.Corrupção parece ser assunto tão banalizado que não consegue mobilizar gente nem para passeata.”
    …a corrupção impacta em 2% o PIB (dados de pesquisa FGV). Não é pouco mas também não é muito. Serve para indignar mas não para a tirar alguém de casa, ainda mais se não for udenista. A inflação atinge 7% dos ganhos do pessoal e ninguém sau às ruas contra a inflação. E existem inúmeros problemas no país mais importantes que corrupção.

    • Se os 7% de inflação durarem seis meses, neguinho vai sair para protestar até contra os resultados do Flamengo.

    • Classe C vê email, joga e conversa no FB. Não lê jornal e nem participar de corrente cívica.

  3. Realmente não tenho como opinar sobre a marcha nas outras capitais. Em Brasília houve um fato realmente inédito: amigos que moram aqui há pelo menos dez anos dizem que nunca viram coisa igual em protesto (só na posse do Lula e na Copa do Mundo). E o que o Jornal Nacional fez? Deu 10 segundos (sim, 10 segundos) à marcha. Na mesma edição deu quase 1 minuto para um desfile no interior de SP que misturou fantasias às tradicionais comemorações da independência. Isso, para mim, é no mínimo um erro de julgamento.

    • Você também não deve estar acompanhando O Globo e a Rádio Globo. A mobilização é maciça, mas, às vezes, destrambelhada – no sábado, ouvi, no táxi, o Alexandre Canázio, um desses demagogos que puluam nas rádios, atacando que os que não foram às passeatas. “À marcha da maconha e na parada gay, todos vão. Os maconheiros e a viadagem tomam as ruas, mas para combater a corrupção, ninguém aparece”, clamava.
      Mais bem articulado, embora tão inflamado quanto, foi o editorial de outro Alexandre, o Garcia, no Bom Dia, Brasil de sexta. Pena que as 11 pessoas que estavam na antessala do médico, depois de uma olhada na tevê, tenham se desinterssado.
      Observe também o período em que não se via tanta gente protestando em BSB, que você menciona. Não deve ser coincidência que seja mais ou menos o mesmo em que o país eseve crescendo sem inflação. Mas menciono isso mum futuro post.

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