Valeu, Época!

Os empregados de empresas estatais e demais órgãos públicos deveriam fazer uma assinatura da Época. Seria um agradecimento muito justo pela força que a revista das Organizações Globo deu à manutenção do emprego deles com  a capa dessa semana. Tudo bem que, provavelmente, a intenção da revista era oposta – “denunciar” a presença do Estado na economia brasileira. Mas e daí? Como dizia Karl M., “a prática é o critério da verdade” e, na prática, a matéria é favorável ao Estado.

Esse tiro sairá pela culatra porque a revista entende pouco de negócios e menos de brasileiros, não sendo, portanto, capaz de enxergar os dois pontos abaixo:

1.Imagine que você é um homem de negócios sul-coreano (mesmo porque no norte da Coréia não há homens de negócios) com interesse em investir no Brasil. Seu primeiro passo, obviamente, é mandar seu pessoal de inteligência garimpar informações sobre a sua área de negócios neste longínquo torrão e sobre a economia local em geral. Dentre o material a ser analisado, estarão certamente os principais veículos de comunicação do país. Então, o que fará você,  “big boss” coreano, depois de ler que uma das maiores revistas do país afirma que nada, nem ninguém, se mexe no ambiente de negócios do país se não estiver associado ao Estado? Vai mandar a secretária marcar o máximo de reuniões com o maior número de dirigentes – ministros, secretários executivos, presidentes de estatais – que puder, certo? Afinal, empresário pode até gostar muito de iniciativa privada, mas gosta ainda mais de dinheiro e não vai ser por ideologia que deixará de ganhá-lo. Se para faturar, precisar se aliar a um estado forte, ele o fará sem pestanejar.  Essa atitude pragmática, claro, reforçará ainda mais o poder do Estado na economia – o oposto do pretendia a Época, para a alegria dos empregados de estatais.

2.Uma alegria que é amplamente dividida.  A Época não entende algo muito simples – brasileiro não vive sem  o Estado. Está no nosso DNA mediterrâneo, assim como nos genes de portugueses, franceses e italianos. Todos reclamam dele, protestam contra ele, o acusam de tudo  – os italianos do Piemonte têm uma ótima frase para definir esse estado de ânimo: “Piove! Governo ladro!” -, mas não conseguem entender o mundo sem ele.

Assim sendo, matérias como essa da Época, que mostram um Estado superpoderoso e presente, acabam por atiçar a vontade inata dos brasileiros de fazer parte deste poder todo.  Essa é a base da florescente indústria dos concursos públicos, uma verdadeira cadeia produtiva que vai dos milhares de professores de cursinhos até bancas especializadas na venda de obras voltadas para os “concurseiros” (já houve até uma peça de teatro de relativo sucesso sobre o tema).

Os milhares de  patrícios que vencem a corrida pelos concursos públicos – cuja concorrência só faz aumentar, ano a ano – trazem consigo outros milhares – mães, pais, irmãos, esposas, maridos, filhos etc -, que os veem como um pilar econômico – o dinheiro pode ser pouco, mas é certo –, exemplos de estabilidade num mundo confuso e, muitas vezes, de  superação e sucesso.

Vamos lá…Agora imagine a potência política desse povo? Pois é. Esse pessoal pode até reclamar do Estado, mas jamais defenderá a ideologia que a Época tão bem expressou na capa da edição dessa semana e não votará em quem quiser matar esse elefante tão forte e, segundo as lendas, tão generoso com os seus.

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3 comentários sobre “Valeu, Época!

  1. Não só latinos gostam do estado: um terço dos nórdicos são servidores públicos.

  2. na mosca.
    a burrice é tão tam(c)anha que revela a própria má fé e, reflexivamente, a própria nojo que nutrem pelo país/estado que os sustenta:
    não fora anuncios e encomendas de livros, assinaturas etc., pelo tal elefante, incluso o histórico apropriamento do próprio pelos mesmos grupos, sempre (v. a exclusividade de 4 famiglias na grande mídia), estariam fritos.
    parafraseando o finado francis, despontam p/ o ocaso.

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