Pintou a campeã

A cascata da TV Globo sobre o livro de português que traria erros de português disparou como favorita a maior cascata de 2010, pelo menos na minha opinião. A crença se baseia na leitura das duas primeiras das 17 páginas do capítulo onde está o tal erro. Foi o suficiente para ver a grosseira manipulação realizada pela Estrela da Morte no caso. Dá só uma olhada no tal capítulo aqui e você verá que, na verdade, o problema não é o suposto erro de português, mas a maneira como o ensino da língua é contextualizado.

Aliás, a assessoria da Ação Educativa, ONG que produziu o livro, mandou aos jornalistas a nota abaixo, na qual chega a dar as fontes de especialistas que defendem a abordagem do livro. Jacaré ouviu-as? Nem os coleguinhas.

“Esclarecimentos sobre o livro “Por uma vida melhor”, para Educação de Jovens e Adultos

Uma frase retirada de seu contexto na obra Por uma vida melhor, cuja responsabilidade pedagógica é da Ação Educativa, vem gerando intensa repercussão na mídia. Diante da enorme quantidade de informações incorretas ou imprecisas que foram divulgadas, a Ação Educativa se coloca à disposição dos órgãos de imprensa para promover um debate mais qualificado, e esclarece:
1.“Escrever é diferente de falar”. Como o próprio nome do capítulo indica, os autores se propõem, em um trecho específico do livro, a apresentar ao estudante da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) as diferenças entre a norma culta e as variantes que ele aprendeu até chegar à escola, ou seja, variantes populares do idioma.

2. Os autores não se furtam, com isso, a ensinar a norma culta. Pelo contrário, a linguagem formal é ensinada em todo o livro, inclusive no trecho em questão. No capítulo mencionado, os autores apresentam trechos inadequados à norma culta para que o estudante os reescreva e os adeque ao padrão formal, de posse das regras aprendidas. Por isso, é leviana a afirmação de que o livro “despreza” a norma culta. Ainda mais incorreta é a afirmação de que o livro “contém erros gramaticais”.

3. Para que possa aprender a utilizar a norma culta nas mais diversas situações, o estudante precisa ter consciência da maneira como fala. A partir de então, poderá escolher a melhor forma de se expressar. Saberá, assim, que no diálogo com uma autoridade ou em um concurso público, por exemplo, deve usar a variante culta da língua. Mas não quer dizer que deva abandoná-la ao falar com os amigos, ou outras situações informais.

4. É importante frisar que o livro é destinado à EJA – Educação de Jovens e Adultos. Ao falar sobre o tema, muitos veículos omitiram este “detalhe” e a mídia televisiva chegou a ilustrar VTs com salas de crianças.  Nessa modalidade, é necessário levar em consideração a bagagem cultural do adulto, construída por suas vivências e biografias educativas.

5. O livro “Por uma vida melhor” faz parte do Programa Nacional do Livro Didático. Por meio dele, o MEC promove a avaliação de dezenas de obras apresentadas por editoras, submete-as à avaliação de especialistas e depois oferece as aprovadas para que secretarias de educação e professores façam suas escolhas. O livro produzido pela Ação Educativa foi submetido a todas essas regras e escolhido, pois se adequa aos parâmetros curriculares do Ministério e aos mais avançados parâmetros da educação linguística.

6.A Ação Educativa tem larga experiência no tema, e a coleção Viver, Aprender é um dos destaques da área. Seus livros já foram utilizados como apoio à escolarização de milhões de jovens e adultos, antes de ser adotado pelo MEC, em vários estados.

(…)
Contexto: outros trechos, do mesmo capítulo, não mencionados na cobertura da imprensa

“A língua escrita não é o simples registro da fala. Falar é diferente de escrever”
“Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes”

“A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”

“Algo semelhante ocorre quando falamos: conversar com uma autoridade exige uma fala formal, enquanto é natural conversarmos com as pessoas de nossa família de maneira espontânea, informal. Assim, os aspectos que vamos estudar sobre a norma culta podem ser postos em prática tanto oralmente como por escrito”

Fontes sobre o tema:
Para obter os contatos dos especialistas listados abaixo, fale com nossa Assessoria de Imprensa: (11) 3151-2333 ramal 160 (Ana) ou 170 (Fernanda)

Vera Masagão – Doutora em educação, Coordenadora Geral da Ação Educativa

Heloísa Cerri Ramos – uma das autoras do livro
Algumas fontes conceituadas no campo linguístico podem ser consultadas sobre o tema:

•         Marcos Bagno
Doutor em Linguística pela USP e professor da UnB

•         Magda Becker Soares
Professora emérita da UFMG, especialista em alfabetização e letramento

•         Sírio Possenti
Professor associado no Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-Unicamp)

•         Marco Antônio de Oliveira
Doutor em Linguística pela Universidade da Pennsylvania, professor da PUC-MG

•         Egon Rangel de Oliveira
Professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC-SP

•         Rodolfo Ilari
Professor de semântica da Unicamp

•         Milton do Nascimento
Doutor em Linguística pela Universidade de Paris VIII, St. Denis e professor de Linguística da PUC-MG

•         Maria Cecília Mollica
Professora titular de Linguística da UFRJ

•         Ataliba de Castilho
Professor titular da Universidade de São Paulo (USP)

•         Maria José Nóbrega
Consultora especialista em ensino de língua portuguesa

•         ABRALIN – Associação Brasileira de Linguística”

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3 comentários sobre “Pintou a campeã

  1. Bom trabalho, Ivson. 😉

  2. Para evitar ambiguidades: o seu, é claro.

  3. O Rodolfo Ilari, só para citar um dos subscritores, é uma referência do ensino de lingüística no Brasil, autor de um dos livros básicos da área, “Introdução à semântica”. Mas o Globo não o considerou capacitado a falar em nenhuma de suas matérias, preferindo sumidades como o prof. Sergio Nogueira.

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