Um certo desconforto

O governo está contente certamente, mas, como cidadãos, creio que não deveríamos ficar tão felizes com a desidratação da oposição. Não há como esconder que a oposição brasileira está se desmanchando. A bem da verdade, ela hoje resume-se ao FHC, o que dá bem a medida da situação. Aécio foi uma esperança até aquele discurso maricotinha – ainda mais decepcionante por ter sido anunciado pela imprensa como se fosse uma final de campeonato -, mas hoje está mais perto do anonimato ou, pior, do folclore, vide o caso do bafômetro.

Assim, o que sobrou para contrapor-se à Dilma? Pois é. A imprensa. O problema para a democracia reside exatamente aí. A mídia pode até ser contra um governo, mas ela não deve ser “a” oposição a ele. O papel correto seria de apoiá-la para que fizesse seu trabalho no parlamento e nas ruas com mais facilidade. No entanto, como  oposicionistas não existem, eis que vemos as páginas dos jornais transformarem-se em tribunas.

Exemplo acabado dessa distorção da democracia brasileira foi a edição de sábado do Globo com os resultados do Censo 2010. Friamente observados, os números confirmam o que se vê nas ruas de todo o país: o Brasil evoluiu muito nos últimos dez anos, embora ainda seja um país injusto e desigual, com muito caminho a percorrer até termos total orgulho dele. Diante desse quadro, uma oposição decente iria para as tribunas – dos parlamentos, da rua, da mídia – e atacaria exatamente esse “gap”, dizendo que com ela teria sido ainda melhor, que o governo não vai conseguir adiante e coisas assim.

O que se viu, porém, foi o Globo fazendo uma parte do papel da oposição, aquele de enfatizar o que ainda falta, esquecendo o quanto se avançou. No entanto, a outra parte, a imprensa não pode fazer: disputar eleições, ganhá-las e exercer o poder. Ela não é um partido político, apesar de tentar agir como um. É a consciência daquela impossibilidade que leva à exasperação, expressa nos textos,  coleguinhas como Ricardo Noblat, Miriam Leitão, Suely Caldas, Sônia Racy, Eliane Cantânhede e outros.

Para o governo esse é um bom arranjo  – afinal, apesar do barulho, os coleguinhas e os barões da mídia não vão lhe tomar o poder. Quem se preocupa com o futuro da democracia no Brasil, no entanto, deve estar se sentindo algo desconfortável.

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2 comentários sobre “Um certo desconforto

  1. O ideal seria oposição forte mas uma imprensa honesta. Uma oposição forte com imprensa na oposição é ainda mais perigoso para a democracia, como na época do Getúlio, ou dos militares…

    abração

    • Discordo, Rafa. Não havia imprensa forte nas épocas que você cita – ela estava sob censura. Uma oposição forte deixa logo de ser oposição. Com a possibilidade de alternância do poder, a imprensa pensa em sua sobrevivência e tende a ser mais neutra (honestidade é questão de ponto de vista, pelo menos nesse caso) e bancar a juíza imparcial. Na atual situação, a imprensa brasileira está um tanto desesperada por não ver possibilidade que o atual dispositivo de poder saia nos próximos oito anos. Aí faz o que está fazendo.

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