Causas profundas

O caso dos bueiros-bomba da Light tem causas mais profundas (com trocadilho) e que recuam no tempo, mas precisamente até meados dos 90s. Como você deve lembrar-se (se tem mais de 30), vivíamos a Era FHC, tempo de privatização. Naquela época, foi-nos vendido pelo governo, com o apoio entusiástico dos coleguinhas, que, finalmente, seríamos salvos de nosso trágico destino terceiro-mundista pelos cavaleiros – teutônicos, franceses, espanhóis, portugueses e até americanos, mesmo que estes jamais tenham passado pela Idade Média – por uma quantia módica, tão módica quanto o valor pago por eles pelas empresas públicas, que arrebanharam na bacia das almas.

O conto dos tucanos, porém, não foi ouvido apenas por nós. Os gringos também o escutaram. Eles ouviram que o Brasil era um país montado de maneira a que 90% da riqueza produzida – variando entre 2% e 3% em média por ano – fosse apropriada por não mais do que 10% da população, quase toda ela concentrada no Centro-Sul do país, em cidades específicas e em zonas ainda mais específicas dessas cidades. A promessa dos tucanos é que esse quadro não mudaria por pelo menos 20 aos e foi com base nessas premissas que os gringos montaram seus planos de negócio de médio e longo prazo.

Não se pode dizer que os tucanos descumpriram sua promessa. Eles não moveram uma palha para alterar o quadro acima. Foi o Nove-Dedos que o fez.

Durante os oito anos de governo de N-D, admitam ou não os coleguinhas, aqueles percentuais lá de cima mudaram – não tanto quanto poderiam e deveriam, mas o suficiente para desequilibrar os planos de negócios do gringos. Eles tiveram que atender mais gente e de maneira melhor do que estava previsto e esse fato obrigou-os a investir mais na expansão do negócios e produtos, o que os levou a sacrificar a manutenção dos equipamentos. Isso quando não simplesmente caíram fora, como os franceses da Light.

De todos os setores, o de energia foi o que sentiu mais rapidamente a mudança promovida pela Era Lula (o de telefonia também sofreu, como provam as estatísticas dos Procons, mas consegue disfarçar com os avanços acelerados na tecnologia dos celulares). A conjunção de crescimento econômico, distribuição de riqueza mais justa e inclusão acelerada de milhões à rede elétrica está sendo demais para o setor, cujas juntas estão rangendo audivelmente. E não vão parar de fazer isso tão cedo porque os investimentos no setor elétrico levam tempo para surtirem efeito.

Assim, é bom nós, os cariocas, termos bastante cuidado por onde andamos nos próximos anos.

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4 comentários sobre “Causas profundas

  1. Caro Ivson, acho a explicação simplista por demais e relacionar a situação da Light com o governo FHC, um pouco exagerado. A Light foi privatizada antes de existir agência reguladora (em 1995, a Aneel foi criada em 1997) e aí sim reside o problema e não na privatização em si. Se assim fosse, a CPFL não seria a empresa de excelência que é.

    O que precisamos é de uma agência reguladora forte, que fiscalize e faça cumprir as determinações da lei. Mas aí, Lula e FH foram semelhantes, contingenciando recursos das agências.

    • Roberto, simplista é achar que agência reguladora é panacéia para os abusos de mercado. Nem nos EUA é assim. Lembra o que aconteceu com a FCC no governo Bush II? Se não lembra, recordo. Ele nomeou o filho do Colin Powell, Michael, presidente da agência que regula as comunicações lá (telecomunicações e mídia – como os EUA são um país notoriamente anti-liberdade de expressão, lá tem agência que regula mídia…). Nada demais, se ele não fosse um conhecido lobista das empresas de mídia. Primeiro ato dele: determinar o estudo para o fim das restrições à propriedade cruzada. Resultado: as restrições caíram e hoje o outrora forte jornalismo regional americano está agonizando ( e não me venha culpar a internet por problemas de jornais cujo assunto quase único são suas cidades).
      Agência reguladora é sensacional, mas tem que ser vigiada de perto em cima, pois, do contrário, o mercado captura e aí babau. E aí chegamos àquela questão: quem regula o regulador?
      Ah! E os casos do Jerson Kelmann (de presidente da da Aneel para a presidência da Light sem escalas) e da agência não ter mandado as empresas ressarcirem a apropriação indébita dos pagamentos recebidos a mais por anos, apesar de reconhecer a malandragem, não foram problemas causados por contingenciamento de verbas para as agências. São exemplos de contigenciamento de vergonha na cara mesmo.

  2. Contingenciando recursos das agências? A Anatel ter, ilegalmente, aberto mão dos imóveis que os consórcios que assumiram as telefônicas estatais teriam de devolver à União tem a ver com contingenciamento de recursos?!

    • Olá RC, não acho que tenha a ver uma coisa com a outra, de fato. Só disse que atribuir culpa à privatização por si só como causa de todas as mazelas da Light é excessivamente simplista.

      Empresas administram mal ou bem o seu patrimônio. Cabe às agências reguladoras fiscalizar. Se não têm os recursos todos que deveriam ter a fiscalização se torna falha.

      A Light foi privatizada antes da criação da agência reguladora. Lógico que os franceses e os americanos da EDF/AES viram aqui uma oportunidade de lucro fácil. E sem agência reguladora e/ou com agência reguladora fraca, isso se concretizou.

      Quanto à Anatel, é outra agência, dirigida por outras pessoas.

      Não acho que por uma gestão errada e inidônea de uma agência, a instituição agência reguladora tenha que pagar por isso e aí decida-se estatizar tudo.

      Tem que funcionar sem corrupção e equilibrar os interesses das empresas (ganhar dinheiro) e do consumidor (ter serviço de qualidade ou pelo menos justo pelo preço que se paga).

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