Escravo de um vício

Vou confessar: algumas vezes eu me odeio por não agir como deveria diante de algumas situações. Ao terminar de ler ontem a matéria do Globo sobre a suposta europeização dos brasileiros foi um dos momentos em que me senti assim. Perguntei a mim mesmo: por que eu continuo assinante de um jornal que faz pouco da minha inteligência dessa maneira?

Porque a matéria publicada na editoria de Ciências sobre uma pesquisa que diz que os brasileiros, em sua maioria, têm uma ancestralidade européia só não é inacreditável exatamente por ter sido publicada no jornal dos Marinho. A tal pesquisa é apresentada como a maior já feita sobre o assunto no Brasil. No entanto, essa “maior pesquisa” foi feita com 934 pessoas, que não sabemos como foram escolhidas e nem como tal amostra foi estratificada por região. Assim, essa pesquisa pode ter sido feita em Salvador no campus da UFBA, onde há turmas de Direito e Medicina com um negro apenas, apesar de a capital baiana ser a maior cidade negra fora da África (o que não foi mencionado pela matéria). Poderia ter sido feita em Recife e os escolhidos serem cinco dos meus primos do ramo louro da família, cuja ancestralidade é reconhecidamente holandesa (tenho primas que poderiam estar tranquilamente naquelas torcidas femininas da Holanda que sempre aparecem em Copas do Mundo), e nenhum do meu lado, índio, negro e um tantinho português.

Outro ponto interessante é que na busca que realizei no site da revista PLoS (aqui), onde o artigo teria sido publicado, não encontei menção a ele, embora a revista tenha publicado dois estudos sobre a mestiçagem na América Latina – um em 21 de março de 2008 (aqui) e outro em 23 de novembro de 2007 (aqui) -, nenhum deles teve a assinatura do geneticista citado pela matéria. No entanto, ele pode ter realmente escrito algo, pois a PLoS, pelo que deu para entender, tem foco na investigação de doenças, sob os mais diferentes ângulos. Assim, o estudo pode ter sido sobre uma doença qualquer, tendo apenas trabahado a questão da mestiçagem no Brasil como ponto de partida metodológico, não sendo o seu foco, como apresentado pelo Globo.

De qualquer maneira, já sabemos qual o destino da matéria e da pesquisa em que supostamente ela se baseou – será usada como mais um argumento do jornal contra a política de cotas nas universidades. A cruzada contra proposta é como um artigo de fé das Organizações Globo, na qual os veículos do grupo de mídia lançam mão de qualquer artifício ou sofisma para vencer. Por que essa obsessão? Não tenho a menor ideia. Se alguém tiver alguma teoria a respeito, por favor me diga.

Enfim, voltando à questão inicial: por que raios eu continuo a assinar um veículo como O Globo. Francamente, não sei. Minha única ideia de explicação é que sou um fraco que não consegue ficar sem seu vício matinal de ler jornal. Mesmo que ele, continuadamente, continue a ofender a minha inteligência.

8 comentários sobre “Escravo de um vício

  1. Pingback: Tweets that mention Escravo de um vício « Coleguinhas, uni-vos! -- Topsy.com

    • Isso é verdade, Zé Antonio. Mas eles trabalham bem esses argumentos pseudocientíficos e um monte de gente cai neles.

  2. Acredito que não temos muitas opções com veículos de comunicação confiáveis e tb o globo se faz valer pela força que tem.. Assim como o cinema americano, atua na massa e no volume e agente acaba tendo que engolir.. Cara, ainda tenho esperanças de termos boas opções de fontes de informação de qualidade… Sugestões são bem vindas….

    • Sou bem mais pessimista, Victor. Não creio mais que tenhamos boas fontes de informação na imprensa. Minhas esperanças concentram-se na internet, nos blogs e nointercâmbio de ideias.

  3. Essa obsessao nao estaria ligada ao fato do Ali Kamel ter um livro com o titulo taxativo “Nao somos racistas” ?

    • Sonia, acho que é o contrário. Ali fez o livro para seguir a obsessão dos Marinho. Minha teoria é que a família não lida bem com o fato de o patriarca ter sido mulato. Como ele sempre se quis branco, o problema ficou.

  4. Queridos, tudo é polêmica nessa nossa ainda colônia o importante e verdadeiro é que o querido Ivison, tem orgulho do lado Holandês d família, os portugueses, franceses, espanhóis adoravam as africanas e as índias, os nossos homens africanos certamente faziam a felicidade de algumas sinhás da casa grande que ficavam grávidas, e infelizmente os rebentos iam para a roda por isso nosso DNA tão rico e tão bonito o resto é folclore….hoje isso errelevante, só os que querem fomentar a discórdia e o preconceito em nosso País com pobres brancos e negros, que se procurar partem de um mesmo DNA, ex. Ivison e e todos os nossos compatriotas. .bjs

Os comentários estão desativados.