Alta noite

Jorge Martins morreu. No obituário, publicado no Globo, o Luiz Carlos Cascon diz que com Jorge na madrugada a chefia podia dormir tranquila. Acrescentou eu, por experiência, que a chefia da madrugada podia ficar acordada tranquila também.

Trabalhei com Jorge durante o meu curto período como pauteiro do Globo, em meados dos 90. Aprendi a respeitá-lo, mais do que isso, admirá-lo. Era um cara tranquilo, realmente com dono de um grave profundo, que tinha perfeito domínio do difícil turno da madrugada – sabia de tudo o que era importante saber sobre a cidade durante esse período do dia. Esse domínio o levou a, talvez, evitar, sem querer, que uma tragédia fosse ainda maior e ficasse impune.

Um ano e pouco depois de sair do Globo, fiz uma matéria sobre os plantonistas da madrugada para a Lide, a revista do Sindicato dos jornalistas do Rio que tínhamos recém-criado (foi para o número 2). Obviamente, Jorge foi um dos personagens principais. A foto da matéria era dele tendo ao fundo a igreja da Candelária, ao fundo, à noite, também obviamente. É que Jorge fora o primeiro repórter a chegar ao local após a Chacina da Candelária, ocorrida em 23 de julho de 1993. Ele narrou quase tudo o que acontecera naquela noite. O “quase” ficou por conta do que ele só me revelou tempos depois, após a reportagem publicada.

Jorge foi o primeiro jornalista a chegar, mas não ficou muito tempo sozinho. Menos de um minuto após descer do carro e ainda tentando entender todo aquele horror, notou que um carro de cor escura passava ao lado da igreja, com os faróis apagados. De repente, acelerou e foi embora. O repórter tinha certeza de que eram o assassinos, que faziam uma ronda caçando os sobreviventes e que se assustaram ao ver o carro branco com o logotipo do Globo. Por que ele não me contou a história quando o entrevistei para a matéria? Ora, por que eu iria publicá-la e alguém poderia achar que ele era um herói ou qualquer coisa assim, algo que de modo algum o agradava.

Por essa e muitas outras, valeu, Jorge! Vai na paz.