A Loucura da Riachuelo ameaça atacar novamente

Primeiro, a boa notícia. O grupo português Ongoing está em fase final de planejamento para o lançamento de um novo jornal no Rio. A má notícia é que esse jornal viria para concorrer com o Extra. Por que é má notícia? Ora, porque o grupo já tem um título que concorre com o popular das Organizações Globo – ele chama-se O Dia.

Dessa maneira, os tugas, também o esteio real do Brasil Econômico, seguiriam a trilha de Ary de Carvalho, que destrambelhou a vendagem de O Dia ao acreditar que poderia transformar o antigo jornal de Chagas Freitas, arauto da política populista da “bica d’água”, num concorrente do principal diário dos Marinho.

Tenho uma teoria a respeito dessa loucura que acomete todos os que dirigem o jornal da rua do Riachuelo: é uma bactéria que se alojou nos dutos do sistema de ar condicionado do prédio. Só pode ser algo assim, pois a evidente insanidade que é investir na ideia de ombrear-se ao Globo, que contraria todas as leis de construção, manutenção e reposiconamento de marcas, comporta apenas uma explicação médica.

Eu estava lá quando esse delírio começou. Naquele tempo (fins dos anos 80), porém, a doença ainda era branda. Ary desejava apenas “qualificar” o jornal, transformando em veículo sério o diário cujos grandes feitos jornalísticos até aquele momento tinham sido as manchetes “Cachorro faz mal a moça” (sobre uma jovem que tivera uma forte indisposição estomacal depois de comer um “podrão”) e “Violada no palco” (falando da atitude do cantor e compositor Sérgio Ricardo, que quebrou seu violão no palco durante a final do festival de música da Record, em 1967).

Até ali, tudo mais ou menos. Era uma ideia defensável. A fase delirante instalou-se durante a malfadada gestão Ruth de Aquino, na segunda metade
dos anos 1990. Ali, ao sentir uma pequena entrada de O Dia na classe B, as Organizações Globo contra-atacaram com o Extra, e Ary e Ruth, em vez de seguir os conselhos de Sun Tzu, na “Arte da Guerra”, e de Akira Kurosawa, em “Kagemusha”, desceram a montanha e foram combater na planície.

O resultado foi que transformaram o jornal mais vendido no Rio, com cerca de 300 mil exemplares, no terceiro colocado, com cerca de 55 mil, na média de segunda a domingo (com pico de pouco menos de 84 mil aos domingos), segundo dados do IVC de dezembro. O Globo passou a ser o mais vendido – em dezembro, média de 295 mil, de segunda a domingo, com 366 mil neste último dia -, ficando o Extra com a segunda colocação, com pouco menos de 238 mil, na média da semana cheia, com 383 mil aos domingos (dados de novembro).

Agora imagine o que acontecerá com a circulação de O Dia se aparecer mais um jornal de jeitão popular no seu nicho e ainda por cima produzido e editado pela mesma empresa, com os mesmos jornalistas que ele?

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6 comentários sobre “A Loucura da Riachuelo ameaça atacar novamente

  1. Só uma correção, meu guru: a violada foi no auditório. A chamada foi de autoria do meu padrinho, João Ribeiro.
    Adorei “a loucura da Riachuelo”!!!

    • Você viu o filme sobre o festiva? Ele quebra o violão no chão e joga na platéia. Mas está feita correção, em nome da precisão histórica. 🙂

  2. Explicação cristalina, meu caro. Obrigado.

    Engraçado é que há alguns meses houve um boato de que o OnGoing faria o seu outro jornal para concorrer com o Globo nas classes A e B.

    Tinha alguma lógica, pelo menos. Essa idéia nova é um absurdo.

  3. Também sou mais simpático à idéia de um novo jornal para as faixas A e B. A opção, porém, não é necessariamente mais simples (embora faça mais sentido em termos de mercado). Por mais que estejam dispostos a gastar, montar um jornal A-B competitivo exige um investimento colossal, o que, obviamente, implica um risco igualmente colossal. Uma possível estratégia seria começar comendo pelas beiradas, com mais opinião e matérias semieditorializadas, mais ou menos como a CartaCapital fez no mercado de revistas – e mais à frente decidir se ficam no nicho ou se partem para a disputa direta mesmo. — Agora, esses boatos aqui e ali também podem ser balões de ensaio que o Ongoing está jogando para testar a reação dos potenciais anunciantes, dos concorrentes e dos próprios leitores.

    • Certo, Chia. Essa era ideia lá atrás, quando o Marcos Sá Corrêa, tomou dinheiro do Ary durante um ano, projetando um jornal, que seria chamado Independente. Nunca saiu do papel exatamente proque custava muita grana. Agora, pelo que sei o Ongoing não teria muita dificuldade em levantar o dinheiro para começar. E, com uma boa campanha de assinaturas, uma distribuição decente e um comercial agressivo (inclusive com venda casada, como faz o Infoglobo), 50 mil assinantes no Rio, ao fim de um ano, seria barbada.

  4. Mas até algum tempo atrás falava-se de um grande jornal para brigar com O Globo. O Globo circula num latifundio plantando margaridas… Será que tá faltando um Stédile na mídia para acabar com o latinfúndio improdutivo?

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