Mídia brasileira, entre a internet e a política

Fim ano, tempo de reflexão. No meu caso, tempo pensar em mais bobagens do que normalmente.  Uma divagação me fez ligar uma das teses do livro “A rede da democracia – O Globo, O Jornal e o Jornal do Brasil na queda do governo João Goulart”, que recomendei aqui, com a crise de identidade dos veículos de comunicação, especialmente os jornais, devido à internet.  Vamos lá?

Uma das teses centrais de “Rede da Democracia” – toma o capítulo 3 inteiro – é que os jornais, no início da década de 60, se arvoravam como porta-vozes da opinião pública e que, neste papel, foram os organizadores ideológicos do Golpe de 64. De minha parte, e olhando pelo lado dos veículos de comunicação, eles não estavam exagerando muito.

Encaremos os fatos: a sociedade civil brasileira praticamente não existia naquele início dos anos 60 do século passado. Havia os sindicato, é certo, mas praticamente só eles. Os movimentos sociais quase não existiam. Ok, havia as Ligas Camponesas, mas elas eram restritas ao Nordeste – especialmente Pernambuco – e o que mais? O movimento negro era restritíssimo, onde existia, e o de mulheres e gays…Bem, você deve estar brincando – eram os anos 1960, velho! Assim, não é de admirar que os jornais (a TV era muito novinha para ser importante) se achassem.

Hoje, a sociedade civil brasileira é muito complexa, uma teia de interesses que se modifica continuamente, ao sabor do momento político. Pior (do ponto de vista dos meios de comunicação, claro): esses interesses têm uma mídia pela qual se expressarem chamada internet. Esses dois pontos simplesmente tornam ridícula qualquer tentativa de jornais, revistas, rádios ou TVs apresentarem-se como porta-vozes da opinião pública. Esta não precisa mais de ninguém portando sua voz, pois fala por si mesma.

Como desde…sei lá… Evaristo da Veiga, a mídia brasileira, principalmente os jornais, só operavam do jeito que falei lá em cima, a enrascada é braba. Não se trata apenas de arrumar um jeito de formatar conteúdo para novos aparelhos ou mesmo desenvolver um inédito modelo de negócio. Para a mídia brasileira, o problema é político. Ou seja, muito mais complicado de resolver.

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6 comentários sobre “Mídia brasileira, entre a internet e a política

  1. Nos tempos atuais ferramentas como a internet nos proporcionaram nos comunicar como nunca antes, porem apesar de sua massificação ainda não é disponível a todos, e os jornais e tv’s ainda tem seus papeis sociais ainda muito vivos para serem desmistificados como “porta-vozes da opinião pública”, porém já encontram uma certa resistência. E o outra coisa importante de lembrar é do cuidado sobre este excesso de informação pois assim como ele pode trazer o bem como um mal ele pode trazer o inverso, informação esta em toda parte, mas não pode ser interpretada de qualquer maneira.

    • Sandro, realmente a internet não está disponível para todos, mas sua “circulação” já é em muito superior aos dos veículos impressos (estou trabalhando para obter uns números sobre isso. Vamos ver…). Mais: essa “circulação” encontra um meio ambiente cada vez melhor para desenvolver-se, que é a sociedade civil brasileira, mais e mais complexa, com o passar do tempo e o avanço da democracia. É um círculo (virtuoso ou vicioso, dependendo do ponto de vista): a sociedade civil desenvolve-se e aumenta a circulação de informação na internet, que, por sua vez, eleva a capacidade de desenvolvimento da sociedade civil. A cada vez que há uma volta nesse círculo, mais fica complicado para os meios tradicionais se dizerem portadores da voz da opinião pública.
      Quanto à informação ser interpretada de qualquer maneira, isso é inevitável. O emssor pode até controlar a informação que emite, mas como ela será decodificada não é algo passível de controle, pelo menos não num nível confiável do ponto de vista do emissor.

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