“Rede da democracia”

Uma explicação para o comportamento estapafúrdio dos meios de comunicação relatado abaixo pode ser encontrado num livro sobre história da mídia. É o “A rede da democracia – O Globo, O Jornal e o Jornal do Brasil na queda do governo João Goulart”, escrito pelo historiador e cientista político Aloysio Castelo de Carvalho e editado pela EdiUFF/Nitpress.

Na obra, Carvalho analisa a ação dos três jornais, unidos formalmente numa rede que repercutia uma cadeia que unia rádios do grupo. O historiador e sociólogo demonstra como os três grupos de mídia trabalharam para solapar a legitimidade do governo legalmente eleito e do Congresso, abrindo caminho para o golpe de Estado de 64.

O processo é muito semelhante ao utilizado atualmente pelo mesmo Globo, Folha e Estadão, com uma  diferença essencial, contra os barões da mídia: naquela época, havia a Guerra Fria. Graças a ela, os meios de comunicação puderam articular facilmente um discurso contra seus alvos, em cima do criado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes), contando com a enxurrada de dinheiro e a capacidade operacional do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), ambas instituições financiadas diretamente pelos Estados Unidos. Hoje, a grana anda curta e ninguém leva a sério a tentativa de transformar Irã e Hugo Chavez em vilões que ameaçam o “mundo livre” (?!!).

Recomendo fortemente o livro para quem se interessa em conhecer a história da mídia brasileira e a matriz ideológica que ainda hoje move os barões midiáticos tupiniquins e a esmagadora maioria dos coleguinhas colocados em postos chave na administração da redação e em colunas. Um aviso, porém: como é escrito por um acadêmico (que, no entanto, chegou a trabalhar na CBN), não espere encontrar a prosa simpática e escorreita de um Laurentino Gomes. Não que seja uma obra difícil de ler, mas é bem mais pesada.