Prometo nada e decido coisa alguma

A primeira eleição em que prestei atenção foi a de 1974, por influência de um amigo do Pedro II, cujo pai concorria a candidato a deputado estadual pelo MDB (não se elegeu). Em 1976, já tinha pegado o gosto pela coisa e, pode acreditar, ficava vendo (não por muito tempo, que ninguém é de ferro) o desfilar de fotos 3×4 dos candidatos e ouvindo os seus currículos. Era a Lei Falcão que tornou aquela eleição para vereador a mais chata de todos os tempos.

Até agora.

Porque essa eleição para presidente é mais insossa que já tive a ocasião de ver. Ok, os candidatos falam, se movimentam, os programas eleitorais são muito bem produzidos, há debates…Mas, para mim, é tão ruim quanto da 76, e sem a desculpa da ditadura e da Lei Falcão. Talvez esteja sendo radical, mas tenho, basicamente, duas razões para assim pensar:

1. Estamos a duas semanas do pleito em segundo turno e nenhum dos candidatos apresentou um programa de governo digno do nome. Era essa a primeira peça de uma campanha – a assessoria do candidato mandava para os jornais (e depois passaram a pôr na internet) um livrinho bacana, com um monte de análises e promessas sobre os grandes temas do país. Os jornalistas ouviam – às vezes, até promoviam mesas-redondas – com especialistas que esmiuçavam o texto, faziam a crítica do programa, e ficava todo mundo sabendo de onde o candidato estava olhando a realidade do Brasil e o que faria para levar no caminho que professava.

Esse ano, teve nada disso. Dilma ainda fez um mis-en-scéne, lá atrás, mas não falou mais no assunto, limitando-se a dizer que vai continuar a obra do Nove-Dedos, sem dizer como. Serra nem isso. Aliás, declarou, com todas as letras, que não vai apresentar programa de governo coisíssima nenhuma para não criar atritos com ninguém. Como é que pode? O cara quer ser eleito para governar o país e os cidadãos só vão descobrir o que ele realmente pensa sobre o Brasil depois de ele tomar posse? Marina? Ah,sim… Mandou aqueles 10 pontos para os concorrentes no segundo turno e ficamos sabendo que ela só tinha ideia do que ia fazer em termos de meio ambiente e mais nada.

Ah! Tem os debates…Taí, eu não posso dizer se eles falaram dos grandes temas já que não assisto nenhum. Mas não devem ter falado, pois os jornais, sites e blogues do dia seguinte só se referem às acusações mútuas e a nenhuma ideia consistentemente defendida. Os tais debates, no fim, ficam parecendo luta de boxe – fulano/fulana venceu, mas por pontos, não nocauteou. Se é assim, então o melhor candidato era o Maguila.

2. Voto é decisão, certo? Você decide que alguém deve governar ou fazer leis, vai lá e vota, positivo? Pois em dois dos momentos mais marcantes dessa campanha, os atores principais pediram penico e empurraram a decisão com a barriga.

O primeiro personagem, claro, foi o STF. Diante da nação que esperava saber se a Lei da Ficha-Limpa veleria ou não, os juizes do Supremo,cuja função é exatamente julgar e decidir, lavaram as mãos e, tendo coisas mais importantes para fazer, foram para cima do muro, deixando o eleitorado de boca aberta.

Talvez incentivada por tão egrégio exemplo, a ex-candidata Marina Silva, que surgiu como possibilidade de uma nova liderança nacional, foi ontem para o proscênio e, olhos rodrigueanamente rútilos, afirmou que, sem hesitação ou sombra de dúvida, com dessassombro e coragem, também não decidiria nada.

Fico pensando naquele colega da sucursal Rio da Folha, que, na véspera do segundo turno, disse que votaria na Marina porque queria o segundo turno “para haver debate de ideias”. Acho que vou mandar um email para ver se ele está satisfeito.