O grilo da vitória (ou vice-versa)

O tempo vai passando e Dilma segue mantendo algo entre 8 milhões (Ibope e Datafolha) e 11 milhões (Vox Populi) de votos de vantagem. Ainda não  é uma vantagem confortável  a 17 dias da eleição, e com uma perspectiva de abstenção enorme,  mas dá uma perspectiva razoável de vitória. É isso que,  por paradoxal que seja, está me grilando.

Quer dizer, na verdade, o grilo cricrila por alguns sinais que considero inquietantes que surgiram, e continuam surgindo , aqui e ali. O primeiro foi aquela conversa de vivandeira do Merval Pereira e do Reinaldo Azevedo com os militares da reserva (e também da ativa) no Clube Militar, a pretexto de debater as ameaças à liberdade de imprensa, que, sabemos todos, não existem (aqui). Depois, foi a blitz do episcopado católico conservador contra a candidata petista,  sem que a CNBB fizesse muita força para contestar a ação. Em meio a isso, a anacrônica discussão sobre o aborto sob o ponto de vista religioso e a campanha internética com baixaria e violência inusitadas, mesmo para o nível rasteiro da internet.br

Esse tipo de movimentação simultânea unindo mídia, igreja e a direita mais reacionária foi visto a última vez por aqui há 50 anos. Escrevi outro dia que a direita estava se reorganizando, o que não é exatamente ruim para a democracia. Essa apreciação, porém, manter-se-ia (eita!) apenas se a direita achar que  pode vencer no jogo democrático. Se ela não acreditar nisso, poderemos ter  problemas.

Por que ela não acharia isso? Bem, uma derrota este ano pode prenunciar – na mente de um direitista tipo Reinaldo Azevedo – outra em 2014, dessa vez para o Nove-Dedos em pessoa. Afinal, Dilma teria uma vantagem que nem N-D teve em oito anos: o domínio das duas Casas do Congresso e um governo com um norte já testado e definido desde o seu início. Assim, mesmo que não seja particularmente brilhante (e não sabemos se é ou não), ela teria uma chance razoável de fazer um bom governo e alavancar a volta de N-D. Uma perspectiva que, temo, pode ser demais para uma direita como a brasileira, tão afeita a golpes de Estado e pouco à democracia.

Pode que eu seja apenas um gato escaldado enxergando um balde de água fria onde nada há, mas confesso que ando nervoso com essas ideias.

6 comentários sobre “O grilo da vitória (ou vice-versa)

  1. Se Dilma for eleita e fizer um governo bem-sucedido, acho difícil que Lula queira voltar.

  2. Pois acho vc otimista, amigo. Já estou nervoso com a possibilidade de derrota…

    • É, ia ser chato, mas, cá pra nós, tirando a chatura da exultação da imprensa – que, ainda assim, será menor o que a de vocês quando ganham campeonato -, mudança mesmo só a médio prazo, isso se mudar alguma coisa, do que duvido muito. No máximo, os meus conterrâneos nordestinos voltarão a comer o pão que o diabo amassou, algo com que estão (ou estavam) acostumados há uns 400 anos.

  3. A exultação da imprensa em título do Flamengo apenas reflete a alegria do povo.

    • É o mesmo tipo de chatice. 🙂
      Mas certamente aquela sobre a vitória da direita será menor do que a que acontece quando o Império do Mal vence.

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