Vai ser divertido

Tudo bem, eu queria que a eleição se decidissse em primeiro turno por pura preguiça. Afinal, precisarei aguentar mais três ou quatro semanas de baixaria – denúncias sem comprovação na imprensa, emails apócrifos atiçando preconceitos na internet, etc -, mas tenho que admitir que vai ser divertido assistir o comportamento dos nossos personagens:

1. O Serra vai assumir completamente o lado direitista e esquecer o que escreveu, como mentor maior do PSDB, durante toda uma vida política de 40 anos? Afinal, ele deve muito da sua ida ao segundo turno à baixaria denuncista da imprensa e ao terrorismo sobre a posição da Dilma a respeito do aborto entre os evangélicos, disseminado – quem diria! – pela Marina. Além disso, terá que explicitar o que fará em relação à privatização, políticas de transferência de renda, relação com um Congresso com maioria de oposição (o que já foi definido) e por aí vai.

2. Por falar nela, como a candidata do PV vai se comportar? Como escrevi num post anterior (aqui),  terá que tomar uma posição e ela mesma tornou as coisas mais espinhosas ao levar o tema aborto para a campanha. Ela tem dois votos – o da juventude classe média ou alta escolarizada e os dos evangélicos, de classe média baixa ou pobre. Ela terá que decepcionar um dos dois, pois pelo menos o primeiro exigirá uma definição e não gostará nada se ela ficar em cima do muro e menos ainda caso posicione-se contra o aborto (o que, acho, ela fará por ser uma pessoa de posições firmes).

3. E a Dilma? Tudo bem que tem uma vantagem de 13% pontos percentuais, mas terá que mostrar se tem garrafas vazias para vender sozinha, sem a ajuda do N-D. Será exigida pela primeira vez nessa campanha. Ok, a economia vai bem, mas há sempre ajustes a fazer, certo? Como agirá para baixar os juros? E o nível dos impostos, tem que baixar?  E como fazê-lo sem comprometer as políticas de transferência de renda e o projeto de desenvolvimento do país? E, afinal, é contra, a favor ou muito pelo contrário na questão do aborto?

4. Também será gozado ver como a mídia vai se comportar. Depois da comemoração de amanhã com a existência de segundo turno, como serão as próximas três ou quatro semanas? Afinal, ela queixou-se de que não foram realizadas discussões importantes para o país. Ok, mas quem impediu, ou pelo menos não exigiu, a discussão desses pontos foi a própria imprensa por investir em baixarias. Será que esse comportamento vai mudar? Duvido, pois acredito que os coleguinhas das redações não sabem mais fazer um jornalismo mais sofisticado (se é que um dia o souberam).

Enfim, devo ter que continuar aturando coleguinhas especializados em baixarias nas próximas semanas, mas terei pelo menos vários momentos de diversão no período

5 comentários sobre “Vai ser divertido

  1. Não interessa quem vai ganhar. Vai ser chato pacas. Eu gostaria que Marina e o PV se declarasse neutro, mas o partido não vai resistir a conseguir a promessa de um carguinho aqui e ali, quem sabe até o MMA.

    • Mas eles não podem ficar neutros, velho, pois as pessoas não ficarão. A campanha vai polarizar ainda mais e o eleitorado vai para algum lugar. Liberar o voto também é bobagem, porque a pulada para cima do muro ficará impossível de disfarçar e isso será cobrado por todo mundo depois – quem ganhar, quem perder e até pela militância. Não tem jeito – Marina e marineiros vão ter que tomar posições sobre meio ambiente, politicas de transferência de renda, privatização e aborto. É hora do vamos ver e não tem como se esconder embaixo da cama.

  2. O que vcs acham dessa supertematização do aborto? É válido discutir isso para o cargo de presidência da República? Ou é apelação?

    • Acho válido até para ultrapassar o terreno moral, avançando até o cerne da questão que é de saúde pública. Algo na linha, “sou até contra, mas isso não muda ao fato de que milhares (milhões?) de mulheres, a maior parte pobre e jovem, fazem abortos todos os anos. E devo, como presidente/a da República fechar os olhos a isso?”

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